quinta-feira, 14 de maio de 2009

Armadilhas do Destino - Capítulo 9

Capítulo 9


Sara chega em casa e encontra Lucia arrumando as malas. Ela estranha a saída súbita de sua mãe.
_Você sumiu.
_Fui resolver algo que estava entalado em minha garganta.
Lucia estranha aquele comentário de sua mãe.
_Como assim, mamãe?
_Fui ver Edith Decresson.
Lucia olha para sua mãe e fica abalada.
_Por que?
_Por que fui dizer algumas coisas para aquela mulher horrorosa.
_Para que mamãe? Ela só vai ficar com mais ódio de nós.
_Eu a enfrentei. Aliás, eu a esbofeteei.
_O que? _Pergunta Lucia abalada.
_Sim, ela disse coisas que eu não gostei e eu não me segurei. Acertei a cara de Edith Decresson. Eu sei que fiz besteira, mas ela precisava de uma lição.
_Mãe, pelo amor de Deus, isso pode acirrar mais essa briga.
_Eu sei, mas vamos embora. Não veremos mais essa mulher, graças a Deus.
_Você não, mamãe, mas eu terei que conviver com ela, se vier a ficar mesmo com Felipe.
Sara sorri tristemente para a filha e as duas se abraçam.
_Calma, minha querida, isso tudo vai passar.
_Eu espero.

...

No almoço...
Edith estava em casa, tomando um suco de uva. Jussara e Laura tinham colocado a mesa para o almoço. Felipe desce as escadas, senta-se e coloca suco de laranja em seu copo.
_Ontem sua namoradinha saiu e não se despediu de ninguém. Gesto muito pouco educado dela, não acha? _Pergunta Edith tomando um gole de seu suco.
Felipe olha para a mãe e tem vontade de explodir. Só que ele olha para Jussara, que arregala os olhos. Tentava dizer para ele manter a calma. Aquilo poderia prejudicar Lucia e a mãe.
_Anda se preocupando com muito pouco, não é mamãe? _Pergunta Felipe dissimulando sua raiva.
Edith o encara.
_É demais pedir um pouco de educação para alguém que vem a minha casa, come da minha comida e não agradece? Nem se quer se despede?
_Tantas pessoas fazem isso. Lucia é tão meiga que saiu para não incomodar. Conheço minha namorada.
_Não gostei dessa garota.
Felipe coloca feijão em seu prato, sobre o arroz.
_Você gosta de alguém, mamãe?
_Que pergunta!
_Mamãe, você detesta todo mundo que se aproxima de mim e de Helena. Ninguém é bom o suficiente para nós. Na certa você queria escolher a minha noiva e o noivo de Helena.
_Isso seria o melhor.
_Gostaria de nos ver casados a pessoas que não amamos, só por conveniência?
_Por que não.
_Estamos no século XX, mamãe. Isso já acabou há muito tempo.
_Fazer o que. Deixa-me ir. Sua irmã saiu cedo. Quis ir de carro com aquele morto de fome, para o Rio.
_Não fale assim de Guilherme. Vai Ter que engoli-lo. Vai ser o marido de sua filha.
_Bem, fique por aí que eu tenho que voltar para a empresa. Tenho uma reunião importante.
Edith se levanta e beija carinhosamente seu filho na cabeça. Assim que ela sai, seus olhos se enchem de lágrimas. Jussara percebe que sua patroa tinha saído e vai ver Felipe.
_Ficou louco, quer que ela descubra tudo?
_Não agüentei Jussara. Tive vontade de dizer umas boas verdades para mamãe.
_Dona Helena e seu Guilherme já saíram. Vão levar Lucia e Sara para o Rio. Fique tranqüilo, daqui a pouco vocês estarão juntos de novo.
Felipe se levanta e sorri para Jussara.
_Você ainda me ama?
Ela sorri para Felipe e seus olhos se enchem de lágrimas.
_Ainda, mas não se preocupe, vai passar. O importante é você ser feliz. Tenho certeza que Lucia o fará feliz. É uma menina doce. Tive oportunidade de conversar com ela.
_Não sei como vou agradecer pelo que fez a ela.
_A melhor forma de me agradecer é sendo feliz ao lado dela. Você sabe que jamais poderia ficar com você, meu amor é proibido.
_Eu sei... mas eu te amei, mas acabou...
_Não se desculpe. Apenas seja feliz.
Ele sorri e os dois se abraçam forte.

...

Helena e Guilherme levam para o Rio de Janeiro, Lucia e Sara. Chegando na cidade, Guilherme as emprega na GS Wind. As duas ficam morando no apartamento dele, até conseguirem um lugar para se instalar. Tudo para que Lucia não se afaste de Felipe.

...

Dois meses depois...
Guilherme estava se arrumando para o casamento. Estava no quarto de Helena. Olhava para sua roupa sobre a cama. Tinha chegado o grande dia. Tinha acabado de sair do banho. Helena tinha ido ao cabeleireiro. Estava se preparando também para o grande momento da vida de ambos.
Tinha acabado de sair do banho, quando a porta se abre. Veste a cueca.
_Não sabe bater não? _Grita Guilherme, que estava pendurando a toalha no aro de metal ao lado do box. Ele sai do banheiro e dá de cara com Edith.
_Não preciso bater a porta de lugar nenhum dentro dessa casa. Ela é minha e entro onde eu quiser.
_Eu percebi que democracia não é a sua praia.
_Sempre engraçadinho.
_ Você gostou, que bom. O que você veio fazer aqui Edith?
_Vim ver você. Tentar mais uma vez fazer com que você desista desse casamento.
_Se veio aqui para isso perdeu seu tempo. Daqui há uma hora eu e sua filha vamos estar casados.
_Por que não a esquece e fica comigo, Guilherme? Eu o amo, como nunca amei outro homem em minha vida.
_Você não ama ninguém. A prova é que está aqui, tentando fazer com que o homem que sua filha ama, desista desse casamento e fique com você.
Com calma, Guilherme coloca a calça.
_Vocês não vão ser felizes.
_Nossa, agradeço os votos de infelicidade.
Edith se aproxima, e Guilherme olha para ela sério.
_Pode parar. Deixe para abraçar o noivo na Igreja. Aí, se você quiser, tire casquinha.
_Você consegue ser extremamente desagradável.
_Não tenho nenhuma intensão de agradar você em nada.
Ele veste a camisa. Olha-se no espelho e analisa os mínimos detalhes. Sob o olhar atento de Edith.
_Você é o homem mais lindo que eu já vi.
_Você já disse isso um milhão de vezes. O que espera que eu diga?
_O que eu espero que você diga, tenho certeza que jamais vou ouvir. Acho que perdi você no dia em que armei aquela situação na Fazenda Decresson, há alguns anos atrás.
_Isso mesmo. Naquela época eu já havia te rejeitado, agora então...
_Pode Ter certeza de uma coisa, Guilherme Souza. Quando começar a trabalhar na minha empresa, farei de tudo para destruí-lo.
_Como fez de tudo para acabar com esse casamento? Você conseguiu?
Edith o olha com ódio. Ela se aproxima da porta e a fecha com força. Guilherme via que ela estava pagando todos os seus pecados. Tinha certeza que um dia ela pagaria por tudo que ela lhe fez. Esse dia chegou.

...

Na Igreja de Montes Claros...
Felipe estava muito bem vestido. Estava de braços dados com a irmã, que estava num belo vestido de noiva. Era impossível esconder sua felicidade. Ao chegar no altar, Felipe cumprimenta Guilherme e os dois se olham, apaixonados. O irmão de Helena vai para o lado da mãe. Edith olha para eles e vê que todas as suas tentativas para impedir aquilo foram em vão. O Padre abençoa os dois e começa a missa. É feita a troca de alianças e o juramento de ambos. Então, no final, o Padre os declara marido e mulher. Guilherme levanta o véu do rosto de sua noiva e a beija com muito amor.
Edith engole aquilo a seco. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ao mesmo tempo que via a felicidade de sua filha mais velha, sofria por perder aquilo que mais desejou depois da morte de Oliveira, capataz que provocou a crise e o término de seu casamento com Kleber Decresson.

...

Rio de Janeiro...
Helena olha para o relógio e vê que já eram duas horas da tarde. Guilherme estava se arrumando.
_Amor, são duas horas, eles vão chegar daqui a uma hora e meia.
_Eu sei.
Ele sai do quarto e pega as suas chaves. Aproxima-se da esposa e sorri.
_Saudades de meus pais. Ainda bem que chegam da Grécia hoje.
_Eles ficaram sentidos por não terem vindo ao casamento. Sua mãe me deu várias broncas pelo telefone.
_Foi você que quis contar para eles depois.
_Eu sei, Gui. Não queria atrapalhar a viagem deles.
_É verdade, mas aí, agüenta a bronca deles.
Guilherme se aproxima de sua esposa e beija carinhosamente sua testa.
_Bom, vou indo.
_Está bem. Olha, avise a dona Clotilde de que não admito que eles fiquem em Hotel. O quarto deles está pronto.
_Eu aviso sim.
Ele sorri para a esposa. Abre a porta e sai.

...

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro...
Guilherme estaciona o carro. Vai para o local onde os passageiros desembarcam. Ao chegar repara que havia um movimento estranho no saguão. Muitas pessoas nervosas. Até que ele se aproxima de um senhor, encostado num dos balcões da Varig.
_O que houve? Eles não estão recebendo os passageiros?
_Não.
_Estou notando uma movimentação estranha por aqui.
_Tem algum parente no avião 407 da Varig, vindo da Europa?
_Sim, tenho, meus pais, por que?
_O avião entrou em contato com a Torre a meia hora atrás. Parece que eles perderam contato com o avião.
_Como assim?
_Estou uma pilha, meu pai e meus dois filhos estavam no vôo.
_Como assim, estavam?
_Olhe mostrador do vôo.
O senhor aponta para Guilherme e ele lê. Ele se assusta.
“Atrasado”.
_Já era para ele ter descido a pelo menos uma hora.
_Como assim?
_O avião saiu mais cedo de Paris. As pessoas que chegariam as três e meia já deviam estar aqui. O avião adiantou a viagem por falta de passageiros.
Guilherme sente um frio na espinha. Realmente se aquilo havia acontecido, era para eles já estarem no aeroporto.

...

Uma Hora depois...
Todos estavam apreensivos. A demora por notícias era grande. Até que uma aeromoça da companhia passa por eles. Guilherme se levanta e agarra o braço da moça.
_O vôo 407 da Varig não deveria já estar aqui? Ele não estava adiantado? Por que a demora? Por que a falta de informação? _Pergunta Guilherme tenso.
_Ainda não temos certeza de nada senhor.
_Certeza de que? _Berra uma outra pessoa do outro lado das cadeiras onde as pessoas estavam esperando seus familiares.
A aeromoça consegue se desvencilhar e entra no guichê, sem falar muita coisa.

...

Duas horas depois...
Um homem sai de dentro do guichê e se aproxima dos passageiros.
_Peço um pouco de atenção, por favor.
As pessoas se aglomeram para ouvir o que aquele senhor tinha a falar.
_Finalmente, alguma notícia _diz o senhor que estava próximo de Guilherme.
_Bem, infelizmente fui encarregado de dar essa notícias para vocês. Elas não são boas. _diz o moço vestido com o uniforme da Varig.
_Por favor, seja claro _Berra Guilherme assustado.
_O Vôo 407 infelizmente atravessou uma forte tempestade no meio do Oceano Atlântico. _diz o senhor, sério.
_O senhor está querendo nos dizer... _diz Guilherme abalado. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ele começa a sentir um frio na espinha. As notícias não eram boas.
_O avião caiu no mar. Não existe mais possibilidade de encontrarem sobreviventes. As equipes de resgate foram acionadas. Pelo que sabemos, através de relato de pescadores próximos as Ilhas Açoures, houve uma forte explosão._diz o senhor.
Aquilo parecia um pesadelo. Guilherme se escora na pilastra perto de onde ele estava para não cair. A sensação é de que o chão sobre seus pés desapareceu. As pessoas começa a berrar. Enlouquecem. Pais perdem filhos e netos, tios perdem sobrinhos. Mães e pais perdem seus filhos.
Parecendo que carregava um peso nas costas, Guilherme se aproxima do telefone público, insere uma ficha e liga para casa. Helena atende.
_Alô.
_Helena, sou eu.
Helena se assusta. A voz de seu marido era de choro.
_Guilherme, o que houve? Que voz é essa?
_O avião de meus pais caiu, Helena.
_Não, meu amor, não... Pelo amor de Deus, que brincadeira é essa?
_Não há sobreviventes, Helena...
_Eu estou indo para aí.
Helena desliga. Uma tragédia havia se abatido na vida de Guilherme. De uma vez só, tinha perdido seu pai e sua mãe.

...

Meia hora depois...

Helena chega no Aeroporto e vê seu marido. As lágrimas não paravam de cair, ele não conseguia controlar. Ela chega no meio do caos. Desespero e sofrimento por todos os lados. Guilherme a abraça e desaba em seus braços. Ela tenta se segurar, mas ao ver o sofrimento das pessoas, dos familiares, ela chora junto ao marido.

...

Duas semanas depois...

O corpos de Clotilde e Mathias são finalmente identificados. Guilherme então ganha o direito de enterrar seus pais. Velados na capela de Pingos de Ouro, são enterrados no Cemitério onde o pai de Helena e Felipe fora enterrado. A Varig é processada e Guilherme ganha a indenização pela morte de seus pais.

....

Um ano depois... 1981...
No Hospital de Montes Claros...
Guilherme tinha se afastado da empresa para se dedicar exclusivamente de sua esposa. A notícia da gravidez de Helena tinha chegado para amenizar a morte de seus pais. Ele estava muito feliz.
Era de manhã, quando Helena começou a entrar em trabalho de parto. Tinha ido para a Hospital e já estava na mesa de cirurgia.
Guilherme estava andando de um lado para o outro. Estava nervoso. Felipe estava com ele. Edith também estava lá.
_Andando de um lado para o outro desse jeito, vai acabar furando o chão do Hospital _diz Edith para o genro.
_Mamãe, respeite o nervosismo do papai do ano. _diz Felipe. Ele se aproxima de seu cunhado e coloca a mão no seu ombro.
_Que demora. Quero ver me filho logo de uma vez. Um ano depois daquele sofrimento, a felicidade tinha que sorrir para mim. _diz Guilherme parecendo uma criança. A felicidade brilhava em seus olhos.
_Sabemos disso, Gui, mas tenha calma. Ela entrou a dez minutos, calma _diz Felipe.
_Parece uma eternidade _diz Guilherme assustado.
_É assim mesmo, acostume-se – Diz Edith olhando para seu genro.
Edith se levanta e se aproxima da janela. Era estranho ser avó pela primeira vez.
_Estou ficando velha. Vou ser avó, pode? _diz Edith rindo sozinha.
_Isso acontece, mamãe _diz Felipe.

...

Duas horas depois...
Guilherme estava muito tenso. Aquela demora não era normal. Felipe percebe a preocupação de seu cunhado. Levanta-se do lugar onde estava sentado e se aproxima dele.
_Fique calmo. Tudo deve Ter uma explicação.
_Essa demora não é normal.
Naquele exato momento, Celso, o médico da família abre a porta da sala de espera e se aproxima de Guilherme. Felipe se levanta e para ao lado do cunhado. Preocupada, Edith também se aproxima. O semblante de Celso não estava muito bom e aquilo preocupa Guilherme.
_Aconteceu alguma coisa com minha esposa? Essa demora não é normal _pergunta Guilherme assustado.
_As notícias não são boas _diz Celso sério.
_Como está minha mulher? _Pergunta Guilherme assustado.
_Sua mulher perdeu muito sangue. O parto se complicou e o bebê entrou em sofrimento. Infelizmente sua esposa não poderá mais ter filhos. Tivemos que retirar seu útero_diz Celso abalado.
Os olhos de Guilherme se enchem de lágrimas.
_Ela está bem? _Pergunta Felipe assustado.
_Agora está _diz Celso.
_Bem, pelo menos meu filho está a salvo _diz Guilherme sorrindo, nervosamente.
_Guilherme, a complicação colocou a criança em sofrimento e ela não resistiu. Infelizmente seu filho nasceu morto _diz Celso arrasado. .
Guilherme tem que se apoiar em Felipe. Era como se o chão tivesse sumido a sua frente. Felipe não segura as lágrimas. O sofrimento era terrível. Novamente a sensação de perder alguém... Novamente a sensação de estar sozinho.
Edith segura Celso pela gola.
_Você é nosso médico da família. Não fez nada para salvar meu neto, desgraçado. Vou acabar com essa espelunca _Berra Edith abalada.
_Acalme-se mamãe, não é hora para perder a cabeça. _diz Felipe.
_Isso não pode ser verdade. Sempre sonhei em ser pai. Meu Deus, é um castigo, é uma aprovação. Só pode ser. Primeiro meus pais e agora o meu filho. Não, é muito para a minha cabeça. _diz Guilherme se sentando. Tinha a sensação de perder as forças.
_Tentei de tudo, Helena, estava muito bem. De repente percebemos uma hemorragia e vimos que a criança estava muito mal. Fiz tudo que eu podia, acreditem. _diz Celso.
_Sabemos disso, Celso. Confiamos em você. Desculpe minha mãe, ela está muito abalada _diz Felipe assustado.
_Não, eu não aceito. Eu quero meu filho, por favor Celso, por favor, diga que tudo isso é mentira. Há um ano minha vida virou de cabeça para baixo. Perdi meus pais e agora meu filho, não, não não..._Berra Guilherme desesperado.
_Por favor, Guilherme, tenha calma. Eu sei que é difícil, mas ainda tem a pior parte. Helena tem que saber de tudo. Vai Ter que ser forte. _diz Felipe chorando.
Celso abre a porta da sala de espera, quando Guilherme se levanta e o chama.
_Celso _Berra Guilherme.
Ele se vira e olha para o paciente.
_Sim _diz Celso.
_Onde está meu filho? _Pergunta Guilherme. As lágrimas caiam de seu rosto, sem que ele fizesse questão de controla-las.
_Está na sala de Cirurgia. Por que pergunta? _Pergunta Celso sério.
_Posso me despedir de meu filho? _Pergunta Guilherme abalado.
Felipe e Edith se levantam a se aproximam de Guilherme.
_Ficou louco? Gosta de sofrer? É sadomasoquista? _Pergunta Edith sem entender nada.
_Não faça isso, vai sofrer muito mais _diz Felipe abalado.
_Eu preciso fazer isso _diz Guilherme.
_Sim, pode ver, mas tem certeza de que é isso que você quer? _Pergunta Celso.
_Tenho sim. _Diz Guilherme.
Celso o leva para a sala de cirurgia. Ao fazê-lo entrar, ele vê um pequeno corpo inerte, debaixo de um lençol verde. O médico se aproxima com ele e levanta o lençol. Guilherme se desespera.
_Por favor, deixe-me a sós com meu filho, eu preciso muito me despedir dele.
_Tudo bem.
Celso se retira. Guilherme fica a sós com seu filho. Com carinho o pega no colo e sofre ao vê-lo sem vida.
_Por que, meu Deus. Ele estava bem e agora está morto. Filho, mil desculpas. Não pude fazer nada, nem eu e nem sua mãe. Como eu posso acabar com essa dor que me invade o peito. Não, por favor, não me deixe... Pai, mãe, acolham meu filho. Por favor, me ajudem, eu não agüento mais sofrer...
Guilherme encosta na parede e escorrega até o chão, abraçado ao seu filho. Não podia descrever a dor que estava sentindo.

...

No quarto de Helena...
Guilherme estava sentado ao lado de sua esposa. Ela ainda não tinha acordado. Felipe se aproxima dele.
_Tem certeza que é melhor ficar sozinho com ela?
_Sim, Felipe. Quem tem que contar sou eu.
_Tudo bem, estaremos aqui fora.
Edith se aproxima dele e coloca a mão em seu ombro. Sabia que nesse hora, todos os ressentimentos deveriam ser postos de lado.
_Estaremos aqui, se precisar de ajuda.
Ele olha para Edith e sorri.
_Obrigado.
Todos saem. Ele fica sentado ao lado de Helena. Segura sua mão e a beija com carinho. Helena abre os olhos e vê seu marido. Com carinho, ela aperta sua mão. Ele olha para ela e sorri.
_Olá, acordou?
_Sim. Acordei.
Guilherme engole a vontade de chorar. Tinha que ser forte para poder comunicar a sua esposa a morte de seu filho.
_Eu ainda não vi nosso filho. Ele é parecido com você? Ele ou ela, não sei... Não consegui ver nada na mesa de cirurgia, simplesmente apaguei.
Ele fica abalado ao ouvir aquilo.
_Helena, você vai ter que ser forte.
Ela estranha aquele comentário do marido.
_Como assim?
_Bem, você teve complicações no parto. O médico teve que tirar seu útero. Não vai poder mais Ter filhos.
Aquela notícia pega Helena de surpresa. Seus olhos se enchem de lágrima.
_Tudo bem, mas pelo menos temos o nosso filho.
_Meu amor, tem que ser forte.
_Como assim? Chame a enfermeira que eu quero ver meu filho. Ou filha, não sei.
_Não tem outra maneira de te dizer, Helena. O bebê nasceu morto.
Helena olha para Guilherme desesperada.
_Não brinque comigo.
_Não estou brincando meu amor. Eu estive com ele nos meus braços, sem vida.
Helena arranca o soro da mão e se levanta. De seus olhos caem lágrimas. Ela começa a berrar. Fica fora de si quando descobre tudo.
_Não, isso não, eu quero meu filho. _Berra Helena desesperada.
Felipe e Edith entram no quarto.
_Calma, não fique assim _diz Edith assustada ao ver sua filha fora de si.
_Helena, meu amor, acalma-se _diz Felipe para a irmã.
Duas enfermeiras entram no quarto. Uma a faz deitar, mas ela estava desesperada. Tentava sair da cama a qualquer custo.
_Eu quero meu filho, eu quero meu filho _Berra Helena.
Guilherme estava abalado. Felipe estava ao seu lado. Edith sai do quarto para não ver o que estava acontecendo. A enfermeira prepara um sedativo injetável e aplica. Ela vai fechando os olhos e logo é deitada na cama com calma pelas enfermeiras.

...

No Cemitério da Família Decresson...

Guilherme olha para o pequeno caixão. Com cuidado, o coloca na cova. Ele joga uma flor e pede para que o rapaz o cubra com terra. De seus olhos, as lágrimas caem e ele não tem nenhuma vontade de conte-las. Ultimamente as lágrimas tem sido constantes em sua vida. Felipe estava ao seu lado. Tinha que estar ao lado de seu cunhado, sempre.
Helena tinha recebido alta, mas estava muito abalada e tinha tomado um calmante. Não queria ver seu pequeno filho ser enterrado.
Lentamente o rapaz que tinha acabado de fechar o túmulo se retira. Ficam somente Felipe e Guilherme. Ele coloca a mão no ombro de seu cunhado.
_Guilherme, estou muito preocupado com você. Não come, não bebe. Por favor, precisa se cuidar.
_Felipe, eu quero morrer.
_Não fale isso, por favor. _Diz o irmão de Helena, com a voz embargada.
_Não pude salvar meu filho, não pude fazer nada. Foi um dia tão esperado. Como eu posso pensar em comer. Ele deve ter sentido frio... Deve ter sentido fome. Por favor, meu Deus, me mate, não quero mais viver. Mais um baque em minha vida. Há um ano enterrei meus pais. Aqui mesmo. Tudo bem, é o natural eles irem primeiro. Não os filhos irem antes. Ele nem cresceu, ele não vai Ter a sua idade, ele não vai Ter a minha idade.
Sem forças ele cai de joelhos. Felipe estava desnorteado. Sua irmã e seu cunhado tinham perdido a vontade de viver. Naquele momento, Felipe sente a mão de alguém em seu ombro. Ao virar para trás, vê Justos.
Os dois se abraçam forte.
_Justos, ele perdeu a vontade de viver _diz Felipe chorando.
_Eu sei como é. Ele vai sobreviver. Eu perdi meus dois filhos _diz Justos emocionado.
_Esses devem ser os seus netos _diz Felipe.
_Sim, Pedro e Rodrigo. _ Diz Justos
_ Mil desculpas, mas vamos nos conhecer no meio de uma tragédia _diz Felipe.
Pedro e Rodrigo abraçam Felipe emocionados.
_Felipe, eles estão muito emocionados, nosso passado veio toda a tona. Leve-os para a Casa Grande. Preciso ficar a sós com Guilherme _diz Justos.
Os três se afastam. Justos senta-se ao lado de Guilherme. Ao vê-lo, ele abraça o sócio e desaba. Um choro dolorido, profundo.
_Chore, meu filho, chore tudo que você puder. Coloque essa dor para fora.
_Não sei se vou agüentar. Dói tudo por dentro.
_Eu sei disso, meu amigo.
_Justos, eu estive com ele nos meus braços. Não pude fazer nada.
_Por algum motivo Deus quis que isso acontecesse.
_Devo ter feito muito mal aos outros em outras vidas.
_Não pense assim. Assim que soube, quase tive um troço. Eu acompanhei a felicidade de vocês, e agora essa rasteira. Depois a morte de seus pais naquele acidente estupido. Minha nossa senhora, o que falta mais acontecer?
_Eu morrer, amigo, não quero comer, não quero beber, não quero fazer mais nada, quero estar com eles.
Os dois ficam sozinhos, abraçados. Guilherme consegue desabafar. Colocar toda a dor para fora. Precisava fazer aquilo, para começar a vida novamente. Juntar os pedaços e recomeçar.

...

Na Casa Grande...
Guilherme entra na casa com Justos. Pedro e Rodrigo o abraçam. Não conseguem falar nada. Só choram. Compartilhavam a dor de Guilherme.

...

No dia seguinte...
Justos sai com Guilherme. Estava de partida para sua Fazenda em Goiás.
_Você vai ficar bem?
_Vou. Não sei o que seria de mim sem você.

_Por favor, meu filho, o que precisar, me ligue. Eu se fosse você convencia a sua esposa a passar uns meses na nossa Fazenda. Ela precisa sair, espairecer.
_Vou ver se consigo fazer uma viagem com ela.
Pedro se aproxima dele.
_Fica com Deus, estamos com você, sempre. _diz Pedro.
_Ele sabe disso. _diz Rodrigo sorrindo para Guilherme.
_Não sei o que faria sem vocês ao meu lado _diz Guilherme.
Eles se abraçam. Os três entram no carro e partem. Em seguida, Guilherme entra na casa.

...

Na Cozinha...
Guilherme abre a porta da geladeira para pegar um copo de água. Julio e Laura entram na cozinha. Olham para ele. Julio não agüenta e se aproxima e abraça o patrão.
_Meu Deus, seu Guilherme. Que tragédia _diz Julio muito abalado.
_Calma, amigo. A vida continua _diz Guilherme.
_E a minha Helena? _Pergunta Julio, de seus olhos caem lágrimas.
_Está sofrendo muito, mas vai sobreviver a tudo isso _diz Guilherme.
_Ela chegou e não queria ver ninguém. Foi direto para cama. Quase morri, seu Guilherme, minha menina não merecia _diz Laura abalada. Com um lenço enxugava as lágrimas.
Guilherme abre os braços e os três se abraçam.
_Ela vai precisar de nós _diz Guilherme.
Naquele momento, Edith entra na cozinha. Olha para os três abraçados. Julio e Laura se assustam.
_Mil desculpas, dona Edith, estamos sofrendo muito. _diz Laura abaixando a cabeça.
_Ela vai sair daqui e nos deixar em paz. Não vai fazer nenhum comentário desagradável em relação a vocês, por que se isso acontecer, eu não respondo por mim. _diz Guilherme. Olha para Edith com raiva, com ódio.
Edith olha para Guilherme e não fala uma palavra. Sabia que ele estava sofrendo, mas o que vê em seus olhos é muito mais do que isso. Assim como ela entrou, ela saiu, sem dar uma palavra.
_Vocês tem o direito de sofrer. Helena é como se fosse filha de vocês. _diz Guilherme.
Eles se abraçam forte.

...

Dois dias depois...
Helena estava em casa. Estava próxima a janela de seu quarto. Olhava o mundo lá fora. Era um dia de Sol. De seus olhos caem lágrimas. Impossível esquecer o que aconteceu. Para ela, tudo estava sem cor. Tudo estava sem vida. Sua vontade era pegar um revólver e dar um tiro na cabeça. A porta se abre. Era Felipe.
_Helena, você precisa reagir.
_Não quero reagir, eu quero morrer.
Ele se aproxima da irmã.
_Tive uma idéia. Conversei muito com Guilherme.
_Eu acho que meu casamento vai acabar. Não posso mais ter filhos e Guilherme ama crianças.
_Não fale assim, ele te ama.
_Ele diz que me ama. Estou me acostumando a viver sem ele.
_Vamos, se arrume.
_Não quero sair.
_Vamos.
Helena tenta recuperar as forças e reage ao convite do irmão. Pega sua bolsa e sai. Eles pegam um carro. Helena nem olhava para nada, estava perdida em seus pensamentos. Felipe olhava para ela. Respeitava seu silêncio.

...

Duas horas depois...
Guilherme estava parado esperando por eles. Ela vê o marido e se assusta.
_Guilherme, o que está fazendo aqui? Não está trabalhando? _Pergunta Helena assustada.
_Tudo foi idéia de seu irmão, por que ele não estava agüentando mais ver você sem vida dentro de nosso quarto. Eu também, não estava agüentando mais ver você querendo morrer como nosso filho, então resolvemos, eu e ele, fazer uma surpresa para você. _diz Guilherme emocionado.
_Trouxemos isso aqui para que você não olhar _diz Felipe. Ele coloca uma facha nos olhos de Helena.
_Não quero saber de brincadeiras, não quero sorrir. Quero morrer _diz Helena. Seus olhos se enchem de lágrimas.
_Fique quieta e faça uma força, vai valer apena _diz Felipe.
Os três sobem as escadas e entram num grande Hospital. Atravessam um grande corredor e entram numa sala de espera.

...

Meia hora depois...
Uma freira chega e pede para que Felipe abra a porta. Guilherme pede para que ninguém faça barulho. Ela para diante de Helena. Com calma, Guilherme retira a venda de seus olhos e Helena vê uma freira com uma criança no colo.
Helena olha para o marido e para o irmão sem entender nada.
_Meu sofrimento foi muito grande, mas o seu é bem maior, Afinal, você é mãe. Então, seu irmão pesquisou, procurou e depois veio falar comigo. Eu estava deitado ao seu lado, enquanto você ainda dormia. Então ele me deu uma idéia que poderia mudar nossos destinos. Vim aqui com seu irmão e perguntamos se havia alguma criança para adotar. Foi quando uma freira muito bondosa nos mostrou essa linda menina. Sua mãe faleceu no parto um mês atrás e me parece que o pai morreu há um ano e ela não tem família. Felipe olhou para ela e se apaixonou. Então, resolvi dar entrada nos papéis para adoção. Só falta escolher o nome _diz Guilherme olhando para Helena, emocionado.
A freira sorri para Helena e lhe entrega a menina. Ela estava dormindo. Dos olhos de Helena caem lágrimas. Ela estava muito emocionada.
_Ela não é linda? _Pergunta a bondosa freira.
_Muito. Meu filhinho morreu no parto e eu não posso mais Ter filhos. Eu a amei assim que a vi. Não estou conseguindo segurar a emoção.
_Não segure. Ponha toda essa dor para fora e agradeça a Deus o grande presente que ele está lhe dando _diz a freia, emocionada também.
Helena se levanta com calma e entrega sua filha a Felipe, que não aguenta de emoção e chora. Ela beija seu irmão com muito amor e carinho.
_Eu amo você, por que você é um ser humano especial. Segure só um pouquinho minha filha, eu preciso abraçar meu marido. _diz Helena.
_Claro _diz Felipe com a voz embargada.
Helena abraça seu marido e o beija apaixonadamente.
Assim que se afastam, ela olha para o marido e enxuga suas lágrimas.
_Você é o amor de minha vida e jamais esquecerei isso. Amei Lisa assim que a vi.
Guilherme sorri.
_Como você a chamou?
_De Lisa. Eu queria muito que ela se chamasse Lisa.
_Lindo nome.
_Posso levá-la para casa?
_Claro. Ela é a nossa filha. Além do mais, não tem mais ninguém nesse mundo.
_Agora tem a nós.
Helena e Guilherme sorriem ao sair com a criança nos braços. Felipe sente-se muito bem. Sua idéia tinha mudado para sempre a vida de sua irmã.

...

Edith estava em casa. Tinha acabado de almoçar. Tinha dado toda a assistência a sua filha e a tragédia que ela e seu marido tinham vivido. Enterrar um recém nascido fugia a ordem natural das coisas. Estava vendo um revista, quando olha para o porta retrato de Helena e Guilherme sobre o piano da sala. Ela larga a revista sobre o sofá e pega a foto e com amor passa a mão sobre a imagem de Guilherme.
“Não posso esconder que vê-lo sofrer foi terrível. Perder um filho machuca muito. Deve ser uma dor que não se supera nunca. Fiquei abalada ao ver minha filha daquele jeito, mas há males que vem para bem. A morte dessa criança vai acabar definitivamente com o casamento de Helena com você, e aí, você estará livre para mim. Vou me aproximar de você e aproveitarei esse momento que você está carente e vou tê-lo nos meus braços, para sempre. Infelizmente minha filha vai sofrer, ao nos ver juntos. Antes ela infeliz do que eu. Ela vai encontrar alguém que a ame muito, tenho certeza”.
Naquele momento, a porta se abre. Helena entra segurando algo com Felipe e Guilherme. Edith fica surpresa ao vê-la com os olhos inchados.
_Helena, onde esteve? _Pergunta Edith abalada.
_Veja mamãe. Venha conhecer sua netinha _diz Helena emocionada.
Edith estranha. Ela se aproxima e vê um bebê de colo nos braços de Helena.
_Quem é essa menina? _Pergunta Edith assustada.
_Tive a idéia e falei com Guilherme. Helena não comia, não saia de casa. Com certeza ia morrer de tristeza pela morte de seu filho. Então fui investigar num Hospital aqui por perto, de Montes Claros mesmo e descobri essa menina linda. Sem família, sem pais. Procurei Guilherme e lhe contei minha idéia. Ele adorou e aqui estamos com ela. Com a minha sobrinha querida, a Lisa _diz Felipe feliz, próximo a menina.
Edith não estava acreditando no que estava vendo. Aquela menina a sua frente fazendo ressurgir o casamento de Helena e Guilherme.
_Não é linda, mamãe? _Pergunta Helena com os olhos cheios de lágrimas.
A matriarca da família se enfurece. Começa a andar de um lado para o outro, inquieta. Guilherme olha para Felipe sem entender nada.
_Não gostou de sua netinha, mamãe? _Pergunta Felipe olhando para a mãe, querendo entender aquela atitude.
Ela se aproxima de Helena. Olha para a criança, séria.
_Essa menina não tem família. Ela não tem o nosso sangue. Quem me garante que índole ela vai ter? Vocês parecem loucos. _diz Edith indignada.
Helena a encara assustada com aquela reação.
_Ela vai ter a índole que eu lhe der, por que eu vou criá-la _diz Helena indignada com o que ela tinha acabado de falar.
_Um dia ela pode se voltar contra vocês. Cansamos de ver casos de filhos adotivos que se voltam contra os pais. As páginas policiais estão cheios desses crimes _diz Edith abalada.
_Que crueldade, mamãe. Você falar uma coisa dessas. Helena está radiante de felicidade _diz Felipe encarando a mãe.
_Você tinha que se contentar. Saber que os designos de Deus são para ser respeitados. Ir contra o que ele manda é uma desfeita _diz Edith olhando para a filha.
_Você está querendo me dizer que eu tinha que aceitar perder um filho e sofrer por ele? O que a senhora tem nas veias? Cimento? No lugar de seu coração existe uma pedra? Com certeza ia querer me ver sofrendo pela morte de meu filho, mas isso não vai acontecer. A senhora aceite ou não, vou criar essa criança como minha e ninguém vai me impedir, nem mesmo você. _diz Helena indignada.
Abraçada a criança, Helena sobe os degraus e vai para o quarto. Felipe olha para sua mãe e balança a cabeça.
_Definitivamente eu acho que a senhora não faz mesmo questão nenhuma de se entender com Helena. Ela tem razão, eu não sei o que a senhora tem nas veias. _diz Felipe. Ele sobe as escadas. Estava indignado.
Por último, Guilherme a encara.
_E você? O que está olhando? _Pergunta Edith encarando- o..
_Sua crueldade, sua insensibilidade. A criança nem cresceu ainda e você só pensa em dinheiro, em nome, em sangue, em dinheiro, em maldade. Você precisa se tratar, Edith Decresson.
_Você está me chamando de maluca? Ora seu... _E é interrompida por ele.
_Veja lá o que vai falar. Nem mesmo vendo o sofrimento da filha você desce desse seu pedestal. Você se acha superior as outras pessoas, mas é de carne e osso, como todos nós. Não adianta Ter todo o dinheiro do mundo, Edith, se você não tem o que quer, não é verdade?
Guilherme sabia exatamente onde queria chegar.
_Todo mundo tem seu preço. Você deve Ter o seu.
_Não estou a venda e nunca estive. Você é uma mulher mesquinha e traiçoeira. Tudo em você me cheira a artimanha, a mentira. Você arma, você chantageia, você machuca. Que carma que a minha mulher tem em Ter que aturar uma mãe como você.
_Veja lá como você fala comigo, rapazinho. Sou o dono da empresa onde trabalha e posso realmente destruir você.
_Não pode não. Tenho competência e sabe disso.
_Não sabe o que eu sou capaz de fazer com quem atravessa o meu caminho.
_Sei sim. Eu a conheço muito bem. Ou pensa que eu me esqueci, na Fazenda Decresson?
_Fale baixo infeliz.
_Tem medo que Helena descubra tudo, não é?
_Vocês vão ver como eu estou certa em relação a essa bastarda que vocês trouxeram aqui para dentro dessa casa.
Ele não aguenta ouvir aquilo e a pega pelos braços. Ele a olha com muito ódio.
_Faça alguma coisa contra ela, e eu acabo com a sua raça _berra Guilherme.
_Você está me machucando _Berra Edith
_E vou te machucar mais ainda se você não deixar minha família em paz.
Guilherme a joga sobre a poltrona e sai da sala. Sobe as escadas. Edith fica estendida sobre o sofá. De seus olhos caem lágrimas.
_Todos vocês vão se arrepender. Vou provar que estou certa. Essa bastardinha vai Ter o que merece.
Edith pega um vaso de flores próximo a onde estava e vara em direção a parede. O vaso se espatifa, quebrando-se em mil pedaços.
Naquele momento, Marcio, o filho mais novo de Julio aparece na sala.
_Dona Edith, a senhora está bem? _Pergunta Marcio, que estava ajudando o pai a arrumar os livros da biblioteca.
_Saia daqui. Quero ficar sozinha. _diz Edith grosseiramente.
O rapaz olha para a patroa com raiva. Em seguida, sai da sala. Ao entrar na Biblioteca vê o pai.
_O que houve, filho?
_Dona Edith está tendo um treco lá na sala.
_Ela é assim. Um dia está bem, outro dia está mal.
_Nunca pensou em sair daqui e viver a própria vida, papai?
_Sempre fui muito ligado a essa família, não vejo motivo para isso. Filho, fique aqui. Já volto.
_Tudo bem, papai.
Ele começa a tirar poeira, quando vê uma gaveta entre aberta. Era da escrivaninha de Edith Decresson. Estranha aquilo, ela sempre trancava aquela gaveta a sete chaves. Ele se agaixa e a abre. Dentro dela estava um envelope escrito. Testamento. Com calma, ele retira os papéis de dentro e lê o conteúdo. Era um a rapaz esperto. Tinha acabado os estudos e pensava em sair de Montes Claros e estudar, ser alguém.
Seus olhos se enchem dágua quando ele lê no testamento o que Kleber Decresson tinha deixado para seu pai. Via também a carta escrita por seu pai, abrindo mão da Fazenda e do dinheiro. Ele pega o documento e sai.

...

Julio estava em casa, pegando algumas coisas, quando Marcio abre a porta e entra. Jussara estava na Casa Grande da família. Junto com Laura.
_Papai?
_Marcio, volte para a biblioteca, a dona Edith gosta de ver seus livros bem limpos.
_Pode me explicar o que é isso?
Marcio entrega os papéis para Julio. Ele o olha assustado.
_Onde arrumou isso?
_A gaveta de dona Edith estava aberta, fui fechá-la, e acabei vendo esses papéis. Curioso, peguei os papéis, abri, e li.
_Não pode fazer isso, não nos pertence.
_A Fazenda e o dinheiro eram nosso, e você abriu mão, por que? _Pergunta Marcio indignado.
Julio olha para ele e vê sua indignação.
_Ele ameaçou matar nossa família.
_Desgraçada, maldita. Essa mulher é um demônio.
_Não fale assim meu filho.
Julio se aproxima dele, mas ele se afasta.
_Não me abrace. Estou com muita raiva de você.
_Por que? O que eu poderia fazer contra essa mulher que tem o mundo aos seus pés?
_Lutar, papai, lutar. Não aguento mais ficar aqui nesta fazenda. Vou embora.
_Não pode fazer isso. Ainda é menor.
_Não pode me impedir de ir. Vou para casa de sua irmã, no Rio de Janeiro. Vou me formar, para tirar vocês das garras dessa infeliz.
_Filho, por favor.
_Ou você faz o que eu estou te pedindo, ou vou abrir o jogo com a mamãe e a Jussara. Elas sabem disso?
_Não, não sabem. Por favor, não conte, mas... não quero que vá, vamos sentir sua falta.
_Tenho que ir pai. Tenho que lutar para tirar vocês daqui.
_Eu entendo, mas... _E é interrompido por Marcio.
_Vou me embora, antes que eu vá lá dentro e enfrente Edith Decresson, de uma vez por todas.
_Não, por favor. Tudo bem, se sua estadia aqui em Pingos de Ouro se tornou insustentável, tudo bem. Vou falar com sua tia, ela vai adorar te receber.
Julio e Marcio se abraçam.
“Eu vou voltar, Edith decresson, para reaver o que é nosso. Aguarde”.
Pensa Marcio.

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