Capítulo 8
Edith olha para Guilherme com ódio. Ele se aproxima. Ela o observa nos mínimos detalhes. Estava mais bonito, mais educado. Via-se que tinha mudado da água para o vinho.
_O que você está pretendendo? _Pergunta Edith assustada.
Ela começa a caminhar para trás, quando ele vem em sua direção.
_Saber se você não quer que eu me case com sua filha por que o meu sangue é ruím, ou se você ainda me ama.
Ela sente seu perfume. Via que ele estava mais educado. Seu coração acelera. Seus olhos azuis se encontram com os dela. Ela poderia enganar a quem quisesse, menos a ela mesmo.
_Afaste-se de mim, por favor.
_Aquele capataz ignorante, aquele rapaz que você humilhou se transformou, minha querida. Hoje sou um futuro administrador de empresas.
Ele se aproxima mais dela e a encosta na parede. Ela sente o calor do corpo dele no seu. Aquilo a faz respirar fundo. Com carinho ele a puxa para si e a olha nos olhos. Ela sente o calor de sua boca, a beleza de seus olhos. Ele aproxima sua boca da boca dela, e ela tenta beijá-lo, mas ele se afasta. Lentamente encosta seus lábios em seus ouvidos. Começa a falar, quase sussurando.
_Sua filha conhece cada detalhe desse corpo. Ela já provou cada parte.
Edith fecha os olhos e se desespera. Era terrível saber que Helena tinha conseguido o que ela sempre sonhou. Naquele momento, ela descobre um sentimento que a assusta. O ódio por sua filha.
_Desgraçado, sabe que eu o amo. Sabe que nada mudou. Sabe que eu poderia Ter te dado o que você quisesse e agora está aqui. Vai se casar com minha filha para se vingar de mim. Tenho muita vontade de matar você, Guilherme, como tenho.
_Não, me matar não. Sua boca não diz isso. Na verdade, sua boca gostaria de estar provando o meu corpo, não é verdade? Só quem tem esse privilégio é Helena. Dormimos juntos todos os dias.
Edith o empurra com força. Naquele momento seu coração estava confuso. Os sentimentos estavam misturados. Ele esbarra na cadeira, próxima a eles. Ele se equilibra para não cair.
_Vou destruí-lo, Guilherme. Eu tenho que odiar você _diz Edith desesperada.
_Como é bom ver você assim. Não sabe como fico satisfeito em ver você me desejando. Essa sua reação não deixa dúvidas. Você ainda me ama. Posso Ter o sangue ruím que for, mas você ainda me quer...
_Você é um cafageste. Vou contar tudo para minha filha, esse casamento não vai se realizar.
_Vai contar o que? Que me humilhou, que me expulsou, só por que não cedi as suas pressões para ir para cama com você? Imagina quando ela souber disso, vou acrescentar que foi na época que seu pai morreu. Ou você pensa que eu esqueci que você foi ao meu quarto, ainda de preto, para dizer que minha permanência na fazenda só aconteceria, se eu fosse para cama com você. Vamos lá, vá lá fora e conte tudo. Ela vai adorar saber.
_Tenho que arranjar um jeito de acabar com você, maldito. _diz Edith, chorando.
_Vou me casar com a sua filha e vou trabalhar na sua empresa.
_Isso nunca, enquanto eu viver.
_Helena é dona da metade de tudo isso, minha querida. Sou o melhor aluno de administração da UFRJ. Ela vai querer a melhor equipe com ela. Ainda mais, sabendo que o seu marido é um cara que tem negócios e os administra muito bem. Você deve Ter conhecido Justos, não. Temos uma estrutura muito sólida na nossa Fazenda. Minha empresa de Importação está indo muito bem.
_Isso só pode ser castigo.
_Eu não precisei mexer uma palha para colocar você nessa situação. Eu falei para você que íamos nos encontrar, Edith Decresson. Quis o destino que o amor da minha vida fosse Helena. Sua filha. Existe um ditado que é muito certo. Aqui se faz, aqui se paga.
_Eu irei destruir o casamento de vocês.
_Pode ser. O futuro só a Deus pertence. Só que aqui e agora, temos que comemorar o meu noivado. Acho melhor você se recompor. Sua maquiagem foi para o brejo.
Guilherme abre a porta do escritório e sai. Não podia esconder sua felicidade. Edith fica enloquecida. De repente, olha para a foto dela e de Kleber encima da mesa.
_ Isso é culpa sua. Você está tentando me enlouquecer. Não pode ser verdade. O homem que eu queria para mim é de Helena. Maldita. Ela vai pagar por tudo isso. Ela e esse infeliz.
Edith pega o retrato de Kleber e joga na parede com muita raiva. O quadro se destroi, junto com o vidro. Sem forças, se ajoelha e chora. Não sabia o que fazer nem como agir.
...
Helena estava conversando com Felipe, quando Guilherme aparece.
_Gui, vem aqui _diz Helena o chamando.
Ele sorri e se aproxima. Os dois se beijam. Helena olha para o irmão.
_Esse aqui é o homem de minha vida, Lipe _diz Helena de mãos dadas com Guilherme.
_Muito prazer, Guilherme. Seja bem vindo a família _diz Felipe cumprimentando- o.
_Muito obrigado. Sua irmã fala muito de você. _diz Guilherme sorrindo.
_Nem preciso dizer o quanto ela fala de você. Tenho que te agradecer _diz Felipe sendo sincero.
_Por que? _Pergunta Guilherme sem entender nada.
_Pelo sorriso que você fez aparecer. Helena está muito feliz. Eu sei disso, eu a conheço _diz Felipe, beijando a mão da irmã.
_Essa linda moça merece ser feliz, não merece? _Pergunta Guilherme.
_Tenho certeza que onde quer que esteja, nosso pai iria gostar muito de você. _diz Felipe olhando para Helena.
_Ele deve fazer muita falta, não? _Pergunta Guilherme abraçando a noiva.
Ela fica com seus olhos cheios de lágrimas.
_Faz sim _diz Helena.
_Só que eu fiquei sabendo que você vai levá-la ao altar e me entregá-la. Isso deve ser uma honra muito grande para você. Eu fiquei muito feliz quando ela me contou. _diz Guilherme.
_É verdade. Agora quem está emocionado sou eu. _diz Felipe.
Helena enxuga suas lágrimas.
_Você merece, tenho certeza disso _diz Guilherme.
_Bem, nada de choro, afinal, hoje é dia de alegria. _diz Helena.
_Com certeza _diz Felipe sorrindo.
_Vamos lá na cozinha, tem duas pessoas que eu quero que você conheça _diz Helena.
_Tudo bem _diz Guilherme.
Helena beija o irmão e se afasta com o noivo de mãos dadas.
...
Na Cozinha...
Laura estava tirando o jantar. As panelas estavam cobertas, esperando esfriar. Julio via os copos e as bebidas, quando a porta se abre. Helena e Guilherme entram.
_Gui, esse aqui é Julio, nosso mordomo. Era fiel escudeiro de meu pai. Só que ele sabe que é muito mais que um mordomo. Ele é quase um pai para mim, e eu o amo, muito. Ju, esse aqui é o Guilherme. O homem que vai me fazer feliz para o resto da vida _diz Helena emocionada.
Julio se aproxima de Helena e a abraça forte. Depois, com muito carinho e com os olhos cheios de lágrimas, sorri.
_Assim você me mata do coração, Helena. Tudo bem, Guilherme, seja bem vindo a família, se é que posso me considerar da família _diz Julio cumprimentando o belo rapaz.
_Muito obrigado. Helena sempre me disse que quando pequena ela ia dormir em sua cama, a noite. Ela se sentia muito segura com o senhor ao lado dela _diz Guilherme cumprimentando o bondoso mordomo.
_ Eu a vi nascer. Foi um dia muito feliz em minha vida. Agora olhando para você, tenho certeza de que irá fazer a minha menina feliz _diz Julio emocionado.
_Vou sim _diz Guilherme feliz.
_Bem, e está é Laura. A mulher responsável por todo esse delicioso jantar. Cozinha como ninguém e também me viu crescer. _diz Helena apresentando seu noivo a Laura.
_Muito prazer _diz Guilherme pegando sua mão e beijando- a.
Laura percebe que o rapaz era muito bonito. Um homem feito para Helena.
_Minha querida, que belo noivo que você arranjou. Ele é muito bonito. _diz Laura abraçando Helena, emocionada.
_Assim eu fico envergonhado, dona Laura _diz Guilherme sem jeito.
_Que nada. É verdade _diz Laura.
_Bem, vim aqui apresentar para vocês, mas já deve estar na hora de servir essa jantar, que deve estar delicioso _diz Helena.
_Claro _diz Julio.
Os dois saem da cozinha e vão para o Pátio. A mesa já estava toda arrumada e os convidados já estavam sentados. Edith sai de sua casa e aproxima-se deles.
Julio aproxima-se dela.
_O jantar está servido, dona Edith. Como a senhora gosta _diz Julio.
_Excelente _diz Edith.
De longe, Guilherme a observa. Estava recomposta. Tentava mostrar que não estava abalada, mas ele sabia que aquilo era pura encenação. Ele sorri. Ela percebe e tem que se controlar muito mais.
O garçom passa com uma bandeja de taças e ela pega uma. Com uma faca, bate no vidro do copo, pedindo a atenção de todos.
_Por favor, gostaria que todos ouvissem o que tenho a dizer. Primeiro, queria que todos pegassem uma taça de vinho, ou champagne ou algo para podermos brindar a uma data muito especial. Ao noivado de minha filha mais velha, Helena Decresson. _diz Edith como anfitriã.
Todos tentam providenciar uma taça. Edith percebe que já tinham feito o que ela havia pedido.
_Bem, vamos brindar, gostaria que os noivos se levantassem. _diz Edith olhando para eles.
Helena e Guilherme se entreolham. Fazem o que ela pede.
_Aqui estamos nós, de pé _diz Helena sorrindo.
_Bem. Antes eu queria agradecer a presença do Prefeito Carlos Alberto Montenegro e sua esposa, Agnes. Nada como a mais importante autoridade de Montes Claros. _diz Edith oferecendo a taça a eles. Eles devolvem educadamente o gentil gesto.
Ele se levanta, junto com a esposa.
_Muito obrigado Edith, pela gentileza _diz Carlos Alberto para a anfitriã.
_Gostaria de agradecer também a presença de Justos Barcelos, sócio do noivo _diz Edith fazendo o mesmo gesto que fez para o Prefeito, em direção a Justos.
Ele se levanta e agradece.
_Você é muito gentil, Edith _diz Justos agradecendo.
_Bem, depois dos devidos agradecimentos, venho aqui apenas desejar a minha filha que inicie uma nova fase de sua vida com muitas alegrias. Com muito amor. Vou ser sincera, não vou mentir, por que hoje não cabe lugar para mentiras. Não é o casamento que eu sonhei para você, Helena Decresson. Tantos homens mais ricos, de sociedade. Fiz tantos planos, mas depois percebemos que os filhos não são nossos e eles é que fazem os sonhos deles. O que posso fazer é torcer pela sua felicidade ao lado de Guilherme. _diz Edith levantando a taça.
Helena olha para Guilherme. Via que ele estava tranqüilo. Aquele comentário de sua mãe foi de extrema grosseria.
_Posso fazer um brinde e dizer algumas palavras? _Pergunta Guilherme olhando para Edith.
_Claro, o jantar e a festa são para vocês _diz Edith sorrindo para ele.
_Agradeço as belas palavras da anfitriã. Desde a primeira vez que eu vi Helena eu soube que ela seria a mulher de minha vida. Sabemos disso quando percebemos que a pessoa q ue está ao nosso lado nos completa em todos os sentidos. _Diz Guilherme, que se vira e se aproxima de sua noiva. Carinhosamente pega suas mãos e coloca um anel em seu dedo.
Todos se emocionam com o gesto. Edith observa aquilo, de pé e seu coração bate tão forte que achava que ia explodir.
_Meu amor, que lindo _diz Helena admirando o anel em seus dedos.
_Bem, para terminar, posso não ser de uma família rica, posso não Ter muito dinheiro, mas eu tenho muito amor a dar para sua filha, Edith. O que não podemos escolher é a sogra. _diz Guilherme levantando a taça, sorrindo para Edith.
Por dentro Edith sente-se humilhada ao ver a felicidade da filha. Não se importa nem com o comentário "engraçadinho" do genro. Na verdade, gostaria de estar no lugar dela. Seu futuro gênro percebe isso.
...
O Jantar é servido e todos o aprovam. Depois as sobremesas são servidas. O jantar estava inesquecível. Todos cumprimentam a anfitriã, elogiando seu esmero em recebê-los tão bem. Ficam na casa Lucia e Felipe, Helena e Guilherme, Justos e Edith. Por motivos de compromissos, o Prefeito Carlos Alberto Montenegro e sua esposa Agnes saem mais cedo, depois das sobremesas.
Lucia se levanta. Vai ao banheiro. De longe, Edith percebe. Julio aparece e para ao lado de sua patroa.
_Felipe e Lucia fazem um belo casal, não dona Edith.
Ela olha para ele e não gosta de seu comentário.
_Felipe é bem parecido com o pai.
Julio a observa e por curiosidade faz uma pergunta.
_Em que sentido?
_Em gostar de pobre. Vocês se proliferam como uma praga que infesta esse país.
Aquele comentário era de extrema grosseria.
_Para a senhora o melhor era estar bem longe daqui, não é?
_Com certeza.
_Eu espero que os dois sejam muito felizes.
_Não se depender de mim. Farei o possível para que meus filhos não se envolvam com gente da sua laia. Gente pobre, sem educação, sem berço.
_Somos pobres sim, com muito orgulho, Dona Edith. E a senhora não se esqueça que um dia já foi pobre também.
_Vai fazer seu serviço, serviçal atrevido.
Julio se afasta dela. Assim que percebe que ele se afastou, vai atrás de Lucia.
...
No banheiro...
Lucia estava arrumando a maquiagem, quando Edith bate na porta.
_Lucia, é você quem está aí?
_Sim, sou eu.
_Posso entrar.
_Claro, Dona Edith.
Edith entra e fecha a porta. Olha a imagem de Lucia pelo vidro.
_Podemos conversar?
_Claro que sim.
Ela se aproxima dela e para ao seu lado. Começa a passar a mão no cabelo de Lucia.
_Posso pedir uma coisa para você, Lucia?
_O que quiser, dona Edith.
_Por favor, acabe com essa coisa de dona Edith. Chame-me apenas de Edith.
_Tudo bem, Edith.
_Assim é melhor.
_O que a senhora ia me pedir.
_Vamos lá. Acha mesmo que Felipe é o homem ideal para você?
Lucia sorri sem entender nada.
_Como assim?
_Felipe é um Decresson. Tantas mulheres mais bonitas e mais ricas dão encima dele direto.
Lucia engole aquilo a seco.
_Por favor, seja mais clara dona Edith.
Ela agarra Lucia pelo braço e a faz olhar para o espelho.
_Não gostaria de ver meu filho envolvido com uma moça que não sabe se vestir, se comportar.
Os olhos de Lucia se enchem de lágrimas.
_Ele me ama dona Edith.
_Deixe de ser melodramática. Não vê que meu filho só quer diversão com você? Lindo daquele jeito ele jamais vai ficar com uma jeca como você. Além do mais você nem saiu direito das fraldas.
_Por favor, não faça isso.
Edith pega o cabelo de Lucia e mostra para ela.
_Olha para esse cabelo. Para essa roupa. Você não sabe se vestir. Não sabe se pentear. Estive analisando você a noite inteira, não sabe segurar um garfo. Não sabe se portar numa mesa. Meu filho é o dono de todo o meu império, ele precisa de alguém a sua altura. O que você acha que vai acontecer quando Felipe perceber que você é uma pessoa sem classe, sem estirpe?
_Não sei.
_Ele vai enjoar de você, minha querida. Vai perceber que não passa de uma moça sem classe que se casou com ele só por causa do seu dinheiro.
_Não, isso não é verdade.
_Vamos lá, eu sei que você é uma alpinista social. Quer crescer as custas de meu filho, só que isso não vai acontecer, por que eu não vou deixar.
_Dona Edith, a senhora está enganada.
_Tudo bem, vamos falar o seu linguajar. Vamos falar a língua que você entende. Quanto você quer para deixar meu filho em paz? Pode escolher. Dólar, francos, marcos. Coloco esse dinheiro em sua conta, em qualquer outro banco, do Brasil ou no exterior, você volta para onde veio e nunca mais terá problemas com dinheiro. Com a condição de ficar bem longe de Felipe Decresson.
_A senhora está me ofendendo.
_Minha querida, fale de uma vez quanto você quer para deixar meu filho em paz.
Lucia nunca foi tão humilhada. De seus olhos caem lágrimas. Olhava para aquela mulher horrorosa na sua frente e não acreditava no que ela estava fazendo. Estava querendo lhe dar dinheiro para que ela abandonasse definitivamente Felipe.
_Não quero nada.
_Não me obrigue usar a força contra você.
_Vai fazer o que? Vai me matar?
Edith se aproxima dela. Seu olhar era de ódio.
_Escuta aqui sua morta de fome. Não vai destruir a vida de meu filho. Ou você faz o que eu estou pedindo, ou é melhor voltar para a Grécia e esquecer que o Brasil existe. Vou fechar as portas de qualquer trabalho aqui neste país, para você e para sua mãe.
_Eu não quero nada. Eu vou embora. Pode ficar com seu filho para você.
_Não é preciso dizer, que se meu filho desconfiar dessa conversa, arranjem um jeito de ir definitivamente para a Grécia, ou aqui no Brasil, vão Ter que mendigar para viver.
Edith sorri e olha para o espelho. Dá um último retoque em sua maquiagem e sai. Lucia se encosta na porta e chora. Lentamente vai descendo até o chão. Estava abalada. Pensava que Edith era uma pessoa diferente da maioria dos ricos. Não era. Ela era cruel e mesquinha. Jamais permitiria que Felipe e ela ficassem juntos.
Naquele momento a porta do banheiro se abre. Era Jussara. Tinha ouvido a conversa das duas. Ao ver a pobre menina no chão, chorando, vai ajudá-la.
_Ei, menina, não fique assim.
_Foi horrível. Ela acha que eu me aproximei de Felipe por causa do dinheiro dele.
_Acalme-se, vamos para o meu quarto.
As duas se levantam. Saem do banheiro e vão para o quarto de Jussara. Assim que chegam, ela fecha a porta e pede para que Lucia sente-se em sua cama.
_Qual o seu nome?
_Jussara.
_Eu me senti tão mal, parecia uma ladra.
_O seu nome qual é?
_Lucia. Sou namorada de Felipe.
_Eu vi vocês juntos. Felipe estava tão feliz ao seu lado.
_Não podemos ficar juntos.
_Edith Decresson é a mulher mais cruel que eu já vi em minha vida. O olhar dela é frio, ela é calculista. E acha que todos só se aproximam deles por dinheiro.
_Tenho que ir embora do país. Minha mãe ia trabalhar no Decresson Supermercados.
_Não faça isso. Ela ia ser perseguida do Edith.
_Você trabalha com ela?
_Ajudo meus pais no serviço de casa. Ela nos humilha de todas as maneiras, você não tem idéia.
_Eu imagino.
_Nem sempre foi assim, Lucia. Meu pai me falou que o marido dela era uma pessoa maravilhosa. Helena e Felipe puxaram a ele. Simples, honesto, sincero. Ele enloqueceu ao descobrir que ela o traia com o capataz. Isso foi a dez anos atrás. Ele matou o rapaz e deu uma surra nela. Pelo menos é o que meu pai diz. É um segredo nosso.
_E o que aconteceu?
_Ele sofreu muito, mas colocou um cabresto nela. Só que o destino pregou uma peça. Um acidente de carro o matou e ela assumiu tudo. Foi a partir dessa época que nossa vida passou a virar um inferno. Por amor a Helena e a Felipe, meu pai ficou.
_Que história! Isso explica um pouco o por que de Edith ser tão amarga.
_É verdade. Agora o que você vai fazer?
_Tenho que sair dessa casa sem que Felipe me veja. Ele vai querer uma explicação do por que eu estou indo embora. E não posso falar.
_Desculpa, Lucia, mas eu sou amiga de Felipe e ele vai sofrer muito.
_Se ele souber, nunca mais vou poder voltar a esse país.
_Que mulher desgraçada! Minha nossa senhora. Vamos fazer assim. Agora está muito escuro para você ir embora. Fique aqui. Durma aqui comigo.
_E minha mãe, ela vai ficar preocupada.
_Qual é o nome dela?
_Sara.
_Eu ligo e invento uma desculpa. Amanhã cedinho você vai para sua casa e conversa com sua mãe e aí vêem, o que vocês vão fazer.
_Tudo bem, muito obrigada, Jussara. Não sei como vou agradecer sua ajuda.
_Só pelo fato de estar contra Edith Decresson, para mim já é uma felicidade.
_Tudo bem. Vou ficar por aqui.
_Vou voltar para ajudar meus pais.
_Tudo bem.
Lucia e Jussara se abraçam forte. Depois Jusssara sai do quarto. Lucia fica sozinha. Chora baixinho até pegar no sono.
...
Felipe andava de um lado para o outro. Helena se aproxima do irmão.
_O que houve, Lipe?
_Lucia disse que ia ao banheiro e até agora nada _diz Felipe nervoso.
_Calma, daqui a pouco ela aparece.
_Só se ela se afogou no banheiro.
_Será que ela está passando mal?
_Meu Deus, você tem razão, Helena.
Felipe atravessa a sala e vai para o banheiro. Ao se aproximar, vê que a porta estava aberta. Entra e não vê ninguém.
“Será que ela já foi embora e nem se despediu? Por que?”. Naquele momento, como se fosse uma fugitiva, Jussara entra no banheiro e tranca a porta. Felipe estranha aquele ato.
_Jussara, ficou louca? O que os outros vão pensar _Sorri Felipe nervoso.
_Preciso falar com você.
_Ju, mil desculpas, mas a gente não tem nada mais a ver.
Ela sorri para ele.
_Não é nada disso, seu bobo. Tenho que falar sobre Lucia.
Aquilo o surpreende.
_Sobre Lucia, por que?
_Sua mãe esteve aqui e a humilhou, Felipe. Disse que se ela não fosse embora, que as portas para qualquer emprego nesse país iriam se fechar. Para ela e para sua mãe. Ela não quer que você se case com ela, por que não aceita ver você casado com alguém que não seja do seu nível. A pobrezinha ia embora nessa escuridão. Eu não deixei.
Os olhos de Felipe se enchem de lágrimas. Estava furioso.
_Maldita Edith Decresson, ela vai Ter que me ouvir, a se vai.
Felipe tenta abrir a porta do banheiro, mas Jussara não deixa.
_O que vai fazer?
_Vou arrazar a minha mãe.
_Vai enfrentar o poder de sua mãe? Felipe. Ela tem dinheiro, tem prestígio. Temos que pensar. Precisamos saber agir.
Felipe senta-se na privada, que estava com a tampa fechada. Estava transtornado.
_Preciso que você me ajude a chamar Helena.
_Acha seguro contar para sua irmã?
_É claro.
_Peça para ela ir ao meu quarto.
_Tudo bem, Lipe. Tenha calma, não faça nada que não se arrependa depois.
_Eu sei. Onde ela está? Ela foi embora?
_Não. Está no meu quarto. Já liguei para a mãe dela e disse que ela teve uma pequena indisposição e que iria dormir no meu quarto, hoje e que amanhã cedinho iria para casa.
_Tudo bem. Vou para o meu quarto.
_Vou falar com Helena.
Jussara abre a porta do banheiro e ela sai. Minutos depois é Felipe quem sai. Vai para seu quarto.
...
Helena estava com o noivo, quando Jussara se aproxima.
_Dona Helena, telefone para a senhora _diz Jussara.
_Meu amor, vou atender e já volto _diz Helena.
_Tudo bem _diz Guilherme.
Helena se afasta e vai para a outra sala atender. Jussara vai atrás.
_Dona Helena, eu menti.
Helena estranha aquilo que Jussara tinha acabado de falar.
_Por que Jussara, o que você aprontou?
_Felipe precisa da senhora. Está em seu quarto.
_Felipe? O que houve?
_Vá, por favor. Não quero que dona Edith me pegue de papo com a senhora. Ele está em seu quarto.
Jussara se afasta. Helena estava tensa com aquilo que Jussara estava acabando de lhe contar. Ela sobe as escadas, discretamente.
...
Felipe estava sentado em sua cama. Não estava acreditando que sua mãe fizera aquilo a sua namorada. De seus olhos caem lágrimas. De repente, alguém bate na porta. Ele pede que a pessoa entre. Sabia que era sua irmã.
_Entre.
A porta se abre. Helena entra e a fecha. Felipe se aproxima dela e a abraça. Helena percebe que ele estava chorando.
_Meu Deus, o que houve?
_Edith Decresson passou dos limites.
Felipe puxa a irmã e a faz sentar em sua cama. Depois, senta-se diante dela.
_O que ela fez agora, Lipe?
_Humilhou Lucia.
Helena se levanta assustada.
_Por que?
_Por que ela é pobre e não tem condições de ser a minha mulher. Por que ela é pobre.
_Mamãe pega pesado.
_Ela disse que se ela não fosse embora, que as portas de todos os empregos nesse país iriam se fechar. Helena, ela não quer me ver feliz.
Felipe a abraça e chora.
_Meu Deus, Felipe. E agora? O que fazemos? Você ainda é menor, e ela também.
_Não sei o que vamos fazer. Jussara ouviu a conversa e a viu no banheiro chorando. Ela queria ir embora nessa escuridão. Ela está no seu quarto, mas confesso que não sei o que fazer.
_Calma, meu amor, vamos achar uma saída.
_Por que tem que ser assim? Por que mamãe tem que ser tão cruel com os outros?
_Ela sempre foi assim. Uma hora ela iria mostrar as garras para você, meu amor. Como ela sempre fez comigo. Já sei. Guilherme pode nos ajudar.
_É seguro?
_Ele é de confiança, meu anjo. Eu consegui fazer com que ele ficasse longe das garras da mamãe. Fiz bem. Seu erro foi Ter trazido essa menina para o meu jantar. Desconfie sempre das boas intensões de Edith Decresson.
_Você tem razão.
...
Helena desce as escadas e sorri para todos.
_Mamãe, o jantar estava perfeito, mas vou me recolher. _diz Helena sorrindo, estava com cara de cansada mesmo.
_Vou com a minha noiva _diz Guilherme.
Todos estavam indo embora também. Só quem ficaria era Justos e Guilherme.
_Se não se incomodam, vou ficar conversando com Justos _diz Edith.
_Adoraria sua companhia _diz Justos.
Helena beija a mãe e Justos. Guilherme acena para os dois e eles sobem. Assim que percebe que Edith volta a conversar com Justos, Helena agarra a mão do noivo e o leva para o quarto de Felipe.
_O que é isso? _Pergunta Guilherme assustado.
_Não faça perguntas, explico depois _diz Helena.
Os dois entram no quarto de Felipe. Com calma os dois explicam tudo o que aconteceu a Guilherme. Depois de tudo explicado, ele se senta para não cair.
_Minha nossa senhora, do que eu me livrei _diz Guilherme bobo com as armações de Edith. Na verdade, ele sabia que ela era esse tipo de mulher, mas pensava já Ter visto tudo, mas a cada dia mais, Edith o surpreendia.
_O que vamos fazer? _Pergunta Helena triste. Não gostava de ver seu irmão daquele jeito.
_Simples. Vamos levá-la para o Rio de Janeiro. Ela pode trabalhar na minha empresa, ela e a mãe _diz Guilherme sorrindo.
Helena sorri para o noivo. Ela levanta e o abraça forte.
_Eu sabia que você tinha uma solução para isso _diz Helena orgulhosa.
Felipe sente-se aliviado.
_Você faria isso por mim? _Pergunta Felipe mais tranquilo.
_Claro, cunhado. Sua irmã vai ser minha mulher e serei da família, não é? _Pergunta Guilherme.
Felipe se levanta da cama e abraça o cunhado.
_Muito obrigado, Gui. Não sei como agradecer _diz Felipe abraçado a seu cunhado.
Helena se abraça a eles.
_Felipe, ele tem solução para tudo. É incrível. _diz Helena, beijando o rosto de Guilherme.
Juntos eles iriam resolver o problema criado por Edith Decresson. O principal era que Edith não desconfiasse de nada.
...
De madrugada...
A porta do quarto de Jussara se abre. Lucia tinha pego no sono. Com calma, ele senta-se na cama. Com carinho, passa mão em seu cabelo. Ela abre os olhos e vê Felipe. Os dois se levantam e se abraçam.
_Eu sei de tudo.
_Minha nossa senhora, sua mãe vai me matar, me expulsar do país.
_Calma. Minha irmã e meu cunhado vão me ajudar. Vão nos ajudar. Temos que levá-la em casa. Venha com calma. O bom é que a casa de Julio e Laura é afastada da Casa Grande. Minha mãezinha querida deve estar no sétimo sono.
_Quem vai me levar para casa?
_Helena e Guilherme, e eu, claro.
_Nossa, eles sabem. Não era para...
_Você e sua mãe vão para o Rio de Janeiro. Guilherme vai dar trabalho para vocês. Na empresa dele.
Lucia se emociona. Estava com medo de sair do país e nunca mais voltar a vê-lo.
_Entrei em pânico. A possibilidade de nunca mais te ver me tirou o chão.
_Eu também. Meu anjo, temos que ir, logo vai amanhecer e minha mãe acorda cedo. Ela não pode desconfiar de nada.
Os dois saem do quarto de Jussara e vão para o carro de Guilherme e Helena. Teriam um longo dia pela frente.
...
No dia seguinte...
Sara estava sentada na mesa abalada com tudo o que estava acontecendo. Helena, Felipe e Guilherme estavam com ela e sua filha. Lucia estava na outra extremidade da mesa. Olhava para sua mãe, assustada.
_Minha nossa senhora, ela me pareceu uma senhora tão distinta.
_Não é, mamãe. Precisamos ir embora.
Sara se levanta angustiada. Olha para a filha e sente raiva de Edith, por tê-la humilhado.
_Ela não podia Ter humilhado você. Você é uma criança ainda, como Felipe.
_Mamãe, temos que decidir. Guilherme nos arrumou um emprego no Rio. Foi a única maneira que encontramos para que eu e Felipe conseguíssemos nos ver.
_Não sei como agradecer, seu Guilherme _diz Sara abalada.
Ela ia se ajoelhar diante dele, mas ele não a deixou fazer aquilo.
_Por favor, dona Sara, vou me sentir muito mal se a senhora fizer isso _diz Guilherme não a deixando fazer aquilo.
_Bem, vamos voltar para a Fazenda antes que minha mãe acorde, vocês tem que decidir. Hoje a tarde voltamos para o Rio. Edith Decresson vai estar no gabinete da Presidência e não vai perceber nada. Da carona que vamos dar para vocês. _diz Helena.
_Vamos sim, Helena. Não temos outra saída _diz Sara, abalada.
_Vamos arrumar tudo e iremos com vocês _diz Lucia.
Felipe e Lucia se abraçam forte.
_Meu Deus, o que há de mal em dois jovens se gostarem? _Pergunta Sara olhando para eles.
_Nada, mas minha mãe gosta de decidir o futuro dos outros _diz Helena.
Sara se levanta e abraça Guilherme e Helena. Lucia e Felipe se beijam, se despedem. Os três saem em companhia de Sara e Lucia. Eles entram, no carro, ele dá a partida. Lucia acena para Felipe e para sua irmã. Em seguida as duas entram.
...
No Gabinete de Edith Decresson...
Mais tarde...
Edith estava sentada, vendo as notícias em seu lap-top, quando a porta de sua sala se abre abruptamente.
_Minha senhora, não pode entrar assim. _Berra Melissa, tentando impedir a senhora de entrar.
Uma senhora entra na sala e olha para Edith Decresson. Ela se levanta, assustada.
_O que é isso? Dona Melissa, a senhora é paga para não deixar entrar qualquer um na minha sala _diz Edith indignada.
_Sou Sara, a mãe de Lucia _diz Sara, abalada.
_Dona Melissa, vou falar mais uma vez. Se isso voltar a acontecer, não vai haver mais uma Segunda chance _diz Edith.
_Sim senhora _diz Melissa assustada.
Melissa sai da sala. Edith senta-se e encara a senhora que estava a sua frente.
_O que a senhora deseja?
_Vim aqui avisar a senhora que vamos embora. Como a senhora quer.
_Muito bom, vejo então que a minha conversa com sua filha rendeu frutos. Bom para vocês duas. Fui bem clara com ela. Eu a quero longe de Felipe. Até ofereci dinheiro, mas num arroubo de honestidade, o que definitivamente eu não acredito, ela recusou. De alguma maneira ela acha que com essa atitude eu mude de idéia em relação a ela e a deixe ficar com meu filho. Tenho certeza absoluta que isso não vai acontecer.
_Não preciso que a senhora acredite ou não na honestidade de minha filha. Vim aqui somente falar que sou honesta e a criei da mesma forma.
Edith se levanta e aproxima-se de Sara.
_Acha mesmo que eu vou acreditar que sua filha não se interessou pelo meu filho só pelo que ela pode ganhar com esse casamento?
_Seus filhos tem valor, dona Edith. As pessoas se aproximam sim, mas não só pelo dinheiro.
_Palavras lindas, mas em nada me farão acreditar que vocês duas não querem ganhar algo com esse casamento.
_Bem, já que uma simples conversa não tem razão de ser pela senhora, vou ser bem direta. Humilhe novamente minha filha e eu mato a senhora, entendeu? _diz Sara séria, num tom ameaçador.
_Eu acho que ela não vai mais Ter coragem de aparecer na minha casa depois do que eu disse para ela. E cão que ladra, não morde, já ouviu esse ditado?
_Que mulher infeliz, que ser horroroso. Por um momento pensei que aquela mulher que me ajudou no supermercado fosse diferente desses ricos metidos, mas não. A senhora é pior.
_Faço isso para o bem de qualquer cliente, mas isso não quer dizer que eu admita que se infiltrem em minha família com interesses escusos. Pode Ter certeza, minha cara, eu sei bem quais são as intenções de vocês.
_Perdi meu tempo vindo aqui, mas pelo menos eu a avisei.
Edith aproxima-se de Sara e a encara.
_É preciso mais que isso para intimidar Edith Decresson, sua morta de fome.
Sara vira-se e vai em direção da porta.
_O ar nesse ambiente está irrespirável.
_Saia daqui. E nunca mais apareça. Vá para junto daquela meretriz de sua filha.
Sara se enfurece. Fecha a porta, aproxima-se de Edith e a esbofeteia. Ela cai sobre o sofá. Sara a olha séria. Com calma, Edith se levanta. Passa a mão na boca e vê sangue.
_De onde saiu este, tem muito mais. É só você humilhar minha filha novamente.
_Saia antes que eu chame a segurança para expulsar você debaixo de pontapés, sua infeliz. Vai me pagar por esse tapa.
_Não tenho medo de você, mulherzinha cruel. Se aproveitar de uma pobre menina indefesa para maltratá-la.
_Não quero ver mais seu rosto aqui nessa cidade. Vou transformar a vida de vocês num inferno.
_Se fizer isso vou direto ao seu filho e conto tudo o que fez. Ele vai adorar saber de tudo.
_Cuidado, pela rua existem carros desgovernados, balas perdidas. Pode acontecer algo com aquela infeliz da sua filha.
_Toque num fio de cabelo dela e garanto que vou te procurar no inferno.
_Saia daqui, infeliz _Berra Edith.
Sara se retira. Tinha enfrentado a fera. Edith estava irada. Passa a mão na boca e vê sangue.
“Tenho certeza de que vamos nos encontrar mais na frente, Sara e Lucia. Com certeza vão se arrepender de terem cruzado o meu caminho.”
quinta-feira, 14 de maio de 2009
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