Capítulo 5
Edith aproxima-se da janela. Estava abalada com tudo o que tinha acontecido. Helena senta-se num sofá afastado. Felipe estava olhando para as duas. Tinha acabado de chegar de viagem. Tinha ido fazer um curso em São Paulo. Assim que chegou, ouviu a briga das duas do lado de fora e aquilo o assustou. Todos que passavam pelo corredor ouviam a gritaria das duas, então resolveu entrar para ver o que estava acontecendo. Acabou presenciando uma cena bastante desagradável.
_Eu chego de viagem, venho ver a minha mãe. Ao chegar na sala de Melissa, começo a escutar uma briga horrível entre vocês duas. Tive que entrar para que não chamassem mais a atenção. Eu não tenho nem paz quando chego de viagem _diz Felipe colocando sua bolsa sobre o sofá diante do sofá onde sua irmã estava sentada.
_Ela me bateu. Nunca vi, uma filha bater na mãe _diz Edith arrasada.
_Você me bateu primeiro. _diz Helena indignada.
Felipe dá um soco na mesa.
_Chega, eu já disse. Ninguém aqui fala mais nada. A partir do momento que houve agressão de ambas as partes, as duas perderam a razão _diz Felipe encarando as duas.
Helena se levanta. Pega suas coisas. Faz mensão de sair.
_Vou embora daqui, isso aqui é uma farsa. Essa família não existe _diz Helena indignada.
_Você não vai a lugar nenhum. Trate de se sentar. Se você sair por aquela porta sem ouvir o que eu tenho para te dizer, sinceramente, Helena, vou pegar minhas coisas e vou sumir e vocês nunca mais vão me ver. Eu estou cansado de tentar fazer vocês duas tentarem se entender. Só tenho quinze anos e tenho que ficar no meio das duas igual um palhaço. _diz Felipe indignado. Ele se senta e seus olhos se enchem de lágrimas.
Sabia muito bem a guerra que era viver entre Helena e Edith. Atendendo o irmão, ela volta a se sentar. Dessa vez agarra sua bolsa e não larga mais.
_Você teria coragem de abandonar sua mãe? _Pergunta Edith. Sua voz estava embargada. Parecia estar tentando segurar o choro.
_Abandonaria sim, dona Edith. Estou cheio de viver no meio de uma guerra onde não há trégua. Onde nem mesmo há respeito no nosso ambiente de trabalho. Afinal, essa empresa é nossa, ou vocês se esqueceram disso? _Perguntou Felipe.
_Ela se esqueceu, eu estava aqui trabalhando, mas ela parece que sente prazer em vir me desafiar. Em vir me alfinetar _diz Edith apontando para Helena.
_Não se exima de culpa, mãe. Você a provoca na mesma intensidade. O passado parece estar bem vivo entre nós. Qual foram as acusações dessa vez? Dela não amar você, amar mais o papai do que você, aposto. _diz Felipe chateado.
_E isso não é verdade? Ela me odeia, sempre me odiou _diz Edith arrazada.
_Mãe, você sempre fez questão de mostrar sua preferência por mim. Isso machuca. Com a morte de papai, você foi sempre dura demais com Helena. Você a afastou de nosso convívio. Até em Colégio Interno ela estudou. Isso para uma menina é muito triste. Graças a Deus eu e ela sempre fomos muito amigos, mas isso poderia ser diferente. Poderíamos ser grandes inimigos, disputando essa empresa. _diz Felipe olhando para a mãe.
Edith abaixa a cabeça. Olha para Helena e vê que ela estava olhando para outro lugar. Com certeza devia estar chorando.
_Eu sei... Fui egoísta, mas ela sempre teve os melhores Colégios, nunca faltou nada para ela _diz Edith séria.
_Faltou carinho, faltou amor. Raramente conversamos mamãe _diz Helena olhando para a mãe. De seu olhos caem lágrimas.
_Eu sei... é verdade. _diz Edith.
_Não pense você que eu vou te aliviar não. Ela é culpada, mas você também é, por que não insistiu, por que não brigou. Por que não quis mudar isso _diz Felipe olhando para a irmã mais velha.
_Por que para mim era conveniente ficar longe. Aprendi a viver sem o carinho de minha mãe. Machucou no início, mas depois a gente se acostuma _diz Helena olhando para Edith.
_Por que não tentamos viver em paz. Temos que tentar esquecer o passado. Dona Edith errou e pagou caro por isso. Seu Kleber Decresson não aliviou. Sabemos disso. Somos seres humanos, somos passíveis de erro. Estamos aqui para aprender e ensinar. Será que é tão difícil esquecer o passado, tentar viver melhor no presente? _diz Felipe.
Helena se levanta. Aproxima-se do irmão e o beija.
_Eu amo muito você, mas acho complicado esquecer o sofrimento de nosso pai, quando ele descobriu que ela estava com outro homem. Pelo que eu sei, ela sempre admitiu que não amava nosso pai. O que posso fazer é tentar estar no mesmo lugar que ela, agora, carinho, amor. Aí você está pedindo demais _diz Helena.
_Ele me surrou, ele matou o homem que eu amei. Seria mais fácil a gente ter se separado, mas ele quis me fazer sofrer. Ele me fez prisioneira na minha própria casa até ele morrer. Você não leva em conta por que não foi você quem sofreu tudo isso _diz Edith.
_Eu teria feito a mesma coisa. Eu iria lavar a minha honra com sangue. E tem mais. Eu no lugar dele teria matado você _diz Helena.
_Helena, por favor... _E ele é interrompido pela irmã.
_Vim aqui comunicar que estou ficando noiva. Quero apresentá-lo a vocês. Vim aqui pedir para que ela faça um jantar especial para nós. Vai ser um grande passo se ela fizer. Se não, vou comemorar com meu noivo. Um dia quem sabe, não é, mamãe, a gente possa a vir se entender. _diz Helena.
Ela se levanta, beija o irmão e sai. Edith senta-se na sua mesa. Felipe olha para sua mãe. Sorri, triste.
_Sua irmã e eu não vamos nos entender nunca. Ela não me perdoa. _diz Edith.
_Não vai dar um abraço no seu filho, vim aqui para te ver. Uma pena Ter visto o que vi. Não vou desistir de fazer vocês se entenderem. Nem que eu leve a vida inteira. _diz Felipe.
Edith se levanta e abraça o filho.
_Saudades de você. Como foi o curso?
_Muito bom mesmo.
_Quer mesmo seguir a carreira de artista plástico? Por acaso não quer ser um administrador de empresas não?
Felipe sorri para a mãe e a beija carinhosamente.
_Tenho um dom para artes, mamãe. Não para ficar com paletó e gravata.
_Tudo bem. Vai ficar aqui e esperar sua mãe ir para casa?
_Claro. Vou te fazer companhia.
_Chegando em casa lembre-me de falar com Julio e Laura para começar a organizar o jantar de Helena. Vou fazer algo que ela jamais vai esquecer.
_Vejo um esforço da sua parte de tentar se aproximar dela. Fico feliz por isso, mamãe.
_Eu sei, meu querido. Só que o caminho é longo e árduo.
_Estarei junto a você. Vai conseguir.
Felipe e Edith se abraçam forte.
...
Passofortes...
Na Fazenda Barcelos...
Guilherme estaciona o carro diante da Casa Grande da Fazenda. A porta se abre e Justos desce as escadas. Os dois se abraçam forte.
_Minha nossa senhora, que saudades _diz Justos
_Também estava com saudades de você, Justos.
_Nosso negócio vai de vento em popa. Graças a Deus. Graças também ao seu faro para negócio. Valeu apena investir no que você sugeriu.
_Vim aqui te entregar isso.
Justos vê um cartão. Ele abre com calma e lê. Olha para seu sócio e sorri.
_Quem é a felizarda?
_Helena Silva, uma estudante de administração, como eu.
_Vamos dar uma volta. Pedro, você estaciona o carro do doutor Guilherme do lado do meu, na garagem. Pode fazer isso para mim? _Pergunta Justos para Pedro.
_Claro, patrão _diz Pedro.
Ele se aproxima, pega as chaves e depois entra no carro. Faz o que o patrão tinha acabado de pedir. Justos e Guilherme caminham pela Fazenda.
_Nunca me falou sobre ela.
_Achei que era um simples namoro.
_Um amor na vida do meu amigo! Isso é muito bom. Isso o fez esquecer de sua vingança?
Guilherme olha para Justos e balança a cabeça negativamente.
_Um dia ainda cruzarei o caminho de Edith Decresson.
_Estive lendo sobre ela, mulher rica, poderosa. Gosta de aparecer.
_Ainda guardo o gosto do meu sangue. Ainda lembro da surra que eu levei. Eu estava quieto no meu canto. Ele veio para cima de mim com aquele papo de estar apaixonada. Na época minha atenção estava voltada para o estudo, para tirar meus pais do sufoco que sempre viveram. Queria apenas trabalhar. O marido dela me contratou, mas eu nunca pensei que sua esposa ia se apaixonar por mim. Como não quis levá-la para cama, ela colocou aquele maldito anel na minha mala, me acusou de roubo e mandou os capangas me darem uma surra. Ela me destruiu Justos, mas um dia ainda vamos nos cruzar.
_Quando ódio amigo. Por que não deixar isso para trás.
_Nunca.
_O que pretende fazer?
_Não sei, ainda não pensei nisso.
_Hoje ela é uma mulher muito influente.
_Quem sabe não provocar um escândalo para cima dela, queimar sua imagem.
Justos para na frente de Guilherme.
_Meu querido amigo e sócio. Sou grato a você por ter colocado meus netos para estudar em São Paulo, por fazer essa fazenda prosperar, de meus negócios estarem muito bem, sendo administrados por você. E em nome dessa amizade, vou lhe dizer uma coisa. Mesmo que você não goste de ouvir. Quando você começa a preparar uma vingança para outra pessoa, você pode estar cavando a cova dessa mesma pessoa, mas vai cavar a sua , ao lado dela. Desista disso. Hoje seu coração tem dono. Helena deve ser uma linda menina. Capaz de fazer você feliz.
Os olhos de Guilherme se enchem de lágrimas. Aquelas imagens dele sendo espancado e sendo escorraçado da fazenda de Edith não saem de sua cabeça. Era um sentimento muito mais forte que ele.
_Justos, não me peça para desistir.
_Não faça nada, deixe que Deus acerte as contas com essa mulher.
_Infelizmente não sou Deus. Tenho que esperar. Eu daria minha vida para vê-la destruida. Para vê-la no chão. Eu a odeio mais do que você imagina.
_Você a odeia mais do que ama Helena?
Ele sorri para o amigo.
_Helena foi uma benção em minha vida. Simples, linda, cheia de vida. Quando a vi pela primeira vez na aula de Cálculo, eu caí para trás. Meu amor por ela abrandou esse sentimento, eu sei disso.
_Por isso serei eternamente grato a Helena.
_Ela me faz bem.
_E a família dela, já sabe?
_Vão preparar um jantar para me receber.
_Não podemos ficar atrás, Gui. Tenho que fazer um super jantar para recebê-la na família. Seus pais estão onde nesse momento?
_Devem estar na Grécia.
_Eles voltam quando?
_Daqui a um mês.
_Vamos fazer assim, vai ao jantar e depois começo os preparativos. Nossa, Pedro e Rodrigo vão adorar saber que vai casar. Eles sempre acharam você muito apegado ao trabalho, não tinha tempo para as mulheres.
_É verdade. E eles como estão?
_Pedro quer ser veterinário e Rodrigo administrador, como você.
_São os irmãos mais novos que nunca tive. Filho único, sabe como é. E você, Justos, nunca amou novamente depois da morte de sua esposa?
_Marie Eunice era uma mulher única e desde então nunca conheci outra. Um grave acidente de carro acabou com a minha felicidade. Matou meus filhos, suas esposas e minha mulher. Deus me deixou somente meus dois netos. Então venho vivendo para eles. Até que você entrou na nossa vida, fez tanto por nós. E faz parte da família.
_Bom ver a fazenda que me acolheu crescendo. Junto com você, meu segundo pai. Tenho pensado muito em você. No que me disse, antes de viajar para o Rio e começar a estudar e trabalhar.
_De garçon, na parte da manhã e a tarde e a noite estudava. Passou numa Faculdade Pública e conseguiu se destacar. Trouxe seus conhecimentos para a Fazenda e hoje ela prospera a olhos vistos. Todos ganharam. Vamos pensar pelo lado positivo. Se essa mulher não tivesse te expulsado, nada disso teria acontecido, não é mesmo?
_É verdade. O que me mata é que sempre sinto o gosto do meu sangue quando ouço a voz dela. O sangue que os capangas dela derramaram. O meu sangue derramado.
_Esqueça, filho. Viva uma nova fase em sua vida. Ame muito Helena. Ela merece que esse coração que bate forte aí nesse peito seja só dela.
Guilherme sorri para o amigo. Olha para ele e não sabe como agradecer tantas coisas. Tantas palavras em horas tão difíceis em sua vida.
_Vou tentar esquecer. Por você.
Justos sorri e abraça Guilherme.
_Estou feliz por você, sabia? Sabia que um dia Deus me daria lábia suficiente para tirar essas caraminholas de sua cabeça.
Justos passa a mão na cabeça de Guilherme e o despenteia. Sempre soube que ele era muito cuidadoso com seu cabelo.
_Não faça isso, Justos _Sorri Guilherme ajeitado o cabelo.
_Continua o mesmo _diz Justos.
Os dois caminham pela Fazenda. Justos queria mostrar as novidades para Guilherme.
...
Helena estava deitada na sua cama em seu quarto. Estava pensativa. De repente, alguém bate na porta.
_Entre.
A porta se abre e ela vê o irmão. Ela se levanta e os dois se abraçam forte.
_Saudades, minha querida.
_Também estava. Sempre que volto para cá, é esse inferno. Minha convivência com a mamãe está insuportável.
_Helena, tente pelo menos não brigar.
_Eu tento, mas é difícil. Imagina quando ela souber que quero fazer meu casamento aqui na Casa Grande de Pingos de Ouro.
_Sério. Ela vai gostar.
_Vai vir com aquela história de me casar com um pé rapado, que tinha escolhido melhores partidos para nós e blá blá blá.
_Ela é assim. Sempre foi e não vai mudar.
_Complicado mesmo. Eu estava no Rio. Vim para cá hoje, vim te ver, mas aí Julio e Laura me falaram que você tinha viajado.
_Fui a um Congresso de Arte Plásticas em São Paulo. Teve um curso interessante também, então achei melhor ir.
_Que luxo, um artista plástico na nossa família.
_Bem, preciso perguntar, pode?
_Claro, já imagino o que seja.
_Como é o meu cunhado?
_Bem, branco, olhos azuis, sincero, romântico, trabalhador, simples. Seu nome é Guilherme. Estuda Administração de Empresas comigo. Ele está um ano adiantado.
_Nossa, não é que Helena Decresson está apaixonada mesmo.
_Só tem um porém.
Felipe a encara assustado.
_Como assim? Um porém?
_Ele não sabe que eu sou uma Decresson.
_Usou o nome de solteiro de mamãe, é isso?
_Sim, Silva.
_Helena, e se sua foto sair num desses jornalecos de fofocas? Ele vai acabar sabendo que você é uma Decresson.
_Procuro não ser fotografada. Prefiro manter minha identidade secreta.
Ela e o irmão riem.
_E a família dele?
_É simples, moram numa cidadezinha no Paraná. Ele trabalha e manda metade de seu salário para eles. Sempre passaram muita dificuldades financeiras. Então ele os ajuda. Admiro muito ele por isso. Em como fala daqueles pais. Que um dia eles irão Ter o que é de melhor.
_Eu acho isso muito legal. Um cara responsável, trabalhador. O problema é quando ele souber que a conta bancária da noiva dele é abarrotada de dólares.
_Eu sei disso. Como contar a ele que sou herdeira, como você, do império Decresson de Supermercados.
_Sendo honesta, abrindo o jogo.
_Escuta, estamos falando muito de mim, e você? Como vai o coração do filho preferido de Edith Decresson?
Felipe olha para ela e não gosta do comentário.
_Pare com isso Helena, não gosto desse tipo de comentário. Sempre recriminei tanto mamãe por fazer com que isso se torne explícito desse jeito.
_Desculpe. Agora fale. Meu irmão querido e amado está amando?
_Sim, estou.
Helena não acredita ao ouvir aquilo.
_Fala sério. De onde ela é?
_Ela é uma grega. Lucia. Tem apenas quatorze anos. Eu e ela nos conhecemos há pouco tempo. Só que quando a vi pela primeira vez, sabia que ela seria minha.
_Ela deve ser linda.
Felipe pega sua carteira e tira de dentro a foto de Lucia. Sua irmã mais velha pega a foto e fica impressionada com a beleza da menina.
_Ela é linda, Lipe.
_Só tem um problema.
Helena faz cara feia para o irmão. Sabia muito bem o que era.
_Mamãe.
_Isso mesmo. Lembra como ela sempre detestou todas as minhas namoradas?
_Só que você nunca gostou delas mesmo.
_É verdade, mas a Lucia é especial. Não quero que ela estrague tudo.
_Ela não vai fazer isso. Estarei por perto para ajudar você.
_Eu acho que agora perco o posto de filho preferido.
_Que nada. Esse menino lindo é o preferido de todos. De mim, de Laura, de Julio.
Felipe é abraçado pela irmã com muito carinho. Sua irmã senta-se na cama e ele coloca sua cabeça em seu colo.
_Sabe o que me pergunto hoje? E me perguntarei sempre?
_O que? _Pergunta Helena curiosa.
_Se papai estivesse vivo, como seria a relação dele com a mamãe.
_Seria horrível. Ele estaria castigando-a até hoje.
_Por que ela fez isso? Meu pai era um homem bom.
_Vamos ser sinceros, Lipe. Nossa mãe casou com o nosso pai por dinheiro.
_Horrível saber disso. Só que você não acha que ele pegou pesado com o amante dela não, e com ela mesmo?
_Felipe, imagina só uma coisa. Imagina você pegando Lucia, a mulher que você ama, na cama com outro homem?
_Eu o mataria, e a mataria também.
_Você conheceu pouco nosso pai. Ele era bom, ele era lindo. Sempre tão carinhoso, comigo e com você. Ele te pegava no colo e chamava de meu herdeiro de olhos verdes.
Ele olha para Helena e sorri. Lembrava de seu pai, nos poucos momentos que eles estavam juntos.
_Como vai ser quando você casar? Ele não vai estar aqui para te levar ao altar.
_Bem, eu já tinha pensado nisso e a solução é escolher alguém para susbtituí-lo. Como eu sei que mamãe jamais permitiria que Julio me levasse, nada mais do que justo, o homem da casa me levar.
Felipe se levanta e olha para a irmã surpreso. Helena sorri.
_Você está me dizendo que... eu... eu...
_Você vai me levar para o altar e me entregar para Guilherme.
Seus olhos se enchem de lágrimas.
_Nossa, assim você me deixa envergonhado, mas muito feliz.
_Ia ser surpresa, mas eu não aguentei.
Os dois se abraçam forte. Helena e Felipe tinham uma ligação muito forte. Um amor difícil de se acreditar, já que eles foram criados por Edith Decresson, que sempre preferiu Felipe a Helena. Só que isso não foi o suficiente para destruir a ligação entre eles. Essa amizade forte e esse amor que um sente pelo outro não tem explicação. Edith nunca gostou dessa ligação, por que sente e sempre sentirá ciúmes de Helena.
_Que coisa linda, vindo de você.
_Eu te amo demais, maninho. Você tem quinze anos e parece Ter trinta, tão maduro, tão sério. As vezes até mais maduro do que eu.
_Que nada. Eu sou sempre aquele que quer acabar com a briga, que não gosta de injustiças. Também sou um cara simples, para desgosto de nossa mãe. Ela queria que eu fosse ambicioso, gostasse de dinheiro e que herdasse tudo que é dela. Para seu azar a administradora aqui é você. Então, você vai ficar com tudo.
_Não só eu, você também. Tudo isso é seu. Cuidarei para a gente, sempre, você vai ver.
Helena e Felipe ficam conversando amenidades. Ela curte a volta do irmão e mata as saudades.
...
Edith Decresson estava sentada em sua sala, quando o telefone toca. Era Melissa.
_Dona Edith, o Prefeito de Montes Claros está aqui fora. Precisa falar com a senhora, posso mandar entrá-lo? Ele diz que é urgente.
_Sim, pode mandar entrar.
Ela desliga o telefone. Assim que o faz, a porta de seu gabinete se abre. O Prefeito entra, pega a mão de Edith e lhe dá um delicado beijo.
_Carlos Alberto Montenegro, há que devo essa honra? _Pegunta Edith pedindo que ele se sente. Ela da a volta em sua mesa e senta-se na cadeira, diante de sua mesa de trabalho, próximo ao Prefeito.
_Vim aqui por que preciso de um favor seu.
_Fale Prefeito.
_Vim aqui pedir um empréstimo a você.
_Outro?
_Sim, é que a Prefeitura está precisando, tem algumas coisas a serem reformadas pela cidade.
_Como a Casa de Jogos que o senhor frequenta? _Pergunta Edith indo direto ao assunto.
Carlos Alberto a olha surpreso.
_O que a senhora disse?
_Disse que a prefeitura precisava de dinheiro para obras. Na verdade, o que vai ser reformado mesmo é o Cassino Clandestino. Não é?
_S...si.... sim. É, também, é uma parte desse orçamento.
_E quanto é que o senhor precisa?
_Quinhentos mil dólares.
Edith se levanta. Balança a cabeça, séria.
_O que o senhor vai me dar de garantia?
Carlos Alberto sente gotas de suor surgirem em sua testa. Edith jamais jogava para perder. Nunca negara um empréstimo a ele. Só que ela sempre quis uma garantia em troca.
_Minha casa _diz Carlos, entregando fotos da casa dele há uns quinhentos metros da Prefeitura.
Ela pega as fotos e vê que a oferta era incrivelmente irrecusável. Sabia que ele não tinha como pagar aquele imóvel e que provavelmente a casa seria sua no futuro.
_Excelente _diz Edith sorrindo para ele.
Carlos Alberto sorri para a poderosa empresária.
_Vai me emprestar o dinheiro?
_Claro, Carlos, agora mesmo.
Edith se aproxima de seu cofre, se coloca na frente dos números, para que ele não veja e o abre. Pega um envelope e dentro dele coloca milhares de dolares, cuidadosamente arrumados. Ela fecha o cofre aproxima-se dele e lhe entrega o envelope.
_Aqui está.
_Quinhentos mil dólares?
Ele olha para ele sério. Ela sorri para o Prefeito.
_Quer conferir?
_Não, Edith, não precisa, confio em você.
_Ótimo. Só que além da sua casa tem mais uma coisa que preciso que me dê, como garantia.
Ela olha sério para a poderosa empresária.
_O que é? _Pergunta ele assustado.
_A garantia de que poderei usufruir de seus favores, tanto aqui, em Montes Claros como em Brasília.
Ele não estava entendendo onde ela queria chegar.
_Como assim?
_O máximo que pode fazer no momento é se reeleger Prefeito de Montes Claros. Quando acabar os quatro anos, vai se eleger Deputado Federal. Vou ajudá-lo. Gostaria de Ter alguém de minha família no poder, mas Helena e Felipe querem distância de política. Então, eu quero em troca a sua casa e a palavra que jamais me negará um pedido meu quando estiver em Brasília.
Carlos Alberto Montenegro sorri para ela.
_Claro.
Edith pega uma promissória e pede para que ele assine. Depois que ele o faz, ela a guarda no cofre.
_Tudo certo? _Pergunta o Prefeito.
_Claro.
Edith lhe entrega a mão e ele a beija, carinhosamente. Assim que ele sai, Edith sorri. Não poderia perder seu prestígio tanto em Monte Claros, quanto em Brasília.
“É bom que ele saiba que quem manda nesta cidade sou eu. Ai de quem atravessar o meu caminho”.
Todos sabem que Edith era a última palavra em tudo na cidade. Prefeito, Delegado e o Padre sempre vinham se aconselhar com ela. Seu prestígio chegava a Brasília, com políticos de nome procurando-a para conselhos sobre negócios e até mesmo política.
...
No dia seguinte...
Helena estava sentada na sua cama, quando o telefone toca.
_Gostaria de Falar com Helena.
_É ela. Quem fala?
Guilherme sorri ao ouvir sua voz.
_Alguém que a ama muito e pensa em você, todos os momentos.
Ela sorri . Era seu noivo disfarçando a voz.
_Gui, nem reconheci sua voz. Enganou-me direitinho.
_É, sempre procuro mudar a minha voz para ver se a minha futura esposa está interessada em outro homem, se já me esqueceu...
Helena sorri.
_Isso nunca vai acontecer, só tenho olhos para você.
_Sei disso, meu amor, estou brincando.
_Que bom que ligou, estava com saudades.
_Eu também. Estou aqui na casa de meus pais. Morrendo de saudades. E você, falou com sua mãe? _pergunta Guilherme para sua noiva.
Guilherme tinha ocultado a Helena seus negócios em Goiânia e em Passaforte. Achava que não tinha chegado a hora de contar toda a verdade.
_Falei sim. Ela vai fazer um jantar para nós.
_Pensei que você não tivesse família, sabia? O único que você falava com frequência é o Felipe, seu irmão mais novo, e só.
_Tem algumas coisas que você precisa saber de minha família.
_Tudo bem, mas em nada isso vai fazer com que eu deixe de amar a mulher mais linda da Faculdade de Administração.
_Assim você me deixa envergonhada.
_É mesmo. Não estou mentindo, estou?
_Se você diz, prefiro me achar simpática.
_O que eu mais gosto de você é sua simplicidade.
Justos estava sentado, vendo Guilherme falar com sua noiva pelo telefone. Nunca entendeu por que Guilherme nunca havia comentado do negócio que os dois tinham juntos. Estava entretido olhando uma revista, quando uma reportagem o chama atenção.
“Edith Decresson – A Empresária do ano”. Uma senhora de cabelo vermelho e uma mecha loira, de um olhar profundamente azul. Extremamente bem vestida e de uma classe fora do comum, aquela mulher impressiona Justos. Olha para Guilherme e se pergunta se aquela era realmente a mulher que o humilhou no passado.
Guilherme se despede da noiva e assim que desliga, aproxima-se de Justos e senta-se próximo a ele.
_Alguma novidade no jornal?
_Não, nem nas revistas.
Ele percebe que Justos guarda a revista rápido.
_O que tem naquela revista que você escondeu?
Justos fica sério.
_Não é nada, só uma bobagem.
_Justos, você não costuma me esconder nada. Isso está me cheirando a reportagem que você não quer que eu veja.
_Não, é que eu pensei...
Guilherme pega a revista e percebe que se tratava de uma revista sobre negócios. Com calma abre e sorri para Justos.
_Parece criança _diz Guilherme rindo.
_Você não vai gostar.
_Deixa de bobagem, o que poderia conter numa revista que me chatearia...
Ele folheia a revista e abre da reportagem que falava sobre Edith Decresson. Seu sangue ferve. Ele se levanta.
_Desgraçada _Berra Guilherme.
_Acalme-se Guilherme, é só uma reportagem.
_Aqui vem falando que ela vai ganhar um importante prêmio. Como as pessoas podem ser tão burras.
_Pelo que eu li, ela é uma mulher que sabe fazer negócios. É uma empresária de sucesso.
_Maldita, ela deu certo.
_Com o dinheiro que ela herdou do marido, é claro que ela tinha que dar certo.
_Em pouco tempo, ela triplicou sua fortuna. Imagino o que ela não deve Ter feito para conseguir isso.
Guilherme vira a folha e se assusta. Não estava acreditando no que estava vendo. Tinha que ler mil vezes para poder acreditar.
“Depoimento de seus Filhos – Helena e Felipe Decresson”. Uma foto de sua noiva ao lado de sua mãe. A Helena que conhece estava ao lado da mulher que dizia ser sua mãe. Edith Decresson. O que ele não entende é por que ela usou o nome de Helena Silva? Ele se levanta e deixa a revista cair no chão. Justos estranha sua reação.
_O que deu em você? _Pergunta Justos assustado com a reação dele.
Seus olhos se enchem de lágrimas. Seu coração começa a bater aceleradamente. Não podia acreditar naquilo.
_Helena está na revista _Berra Guilherme enlouquecido.
Justos pega a revista e a abre na reportagem. Depois da reportagem central, vinha a foto dos filhos abraçados a ela. Ele não acredita.
_Essa é a sua noiva? A Filha de Edith Decresson? Herdeira do Grupo Decresson Supermercados? Minha nossa senhora... que coincidência terrível.
_Exatamente Justos, ela me enganou. O nome dela é Helena Silva, e não Helena Decresson, isso só pode ser uma brincadeira de mau gosto.
_Não fale assim, ela deve Ter tido um bom motivo.
_Não vai haver mais casamento.
_Você ficou louco? Vai abrir mão do seu amor por essa bela moça, só por que ela é filha de Edith Decresson?
_Ela é filha da mulher que quase me destruiu. Eu odeio essa mulher. Por muito tempo em minha vida eu sofri, pensando na humilhação que eu passei ao ser acusado de roubo. Como vou poder estar ao lado da mulher que é filha da minha algoz? _Pergunta Guilherme, chorando.
Ele se senta e coloca as mãos na cabeça, estava desesperado. Um misto de sentimentos invadia seu coração. Ódio, amor, raiva, angustia. Tudo junto.
_Não jogue sua vida, seu amor, pela janela por causa do ódio que sente por essa mulher. Ou ela vai te destruir de novo. Você não ama Helena? _Pergunta Justos sentado em frente a seu amigo.
_Muito, mais do que minha própria vida.
_Presta atenção. Se para você está sendo uma grande surpresa, imagine para Edith Decresson? Imagine que vingança doce, você ir cumprimentar Edith e ela saber que você encontrou o amor ? O amor da sua vida é a filha mais velha dela. A vida lhe deu um presente, Guilherme. A vida deu uma volta de trezentos e sessenta graus. Agora, você vai estar por cima. Vai poder olhar para ela de igual para igual. Você não é mais um capataz, agora você é o marido da filha dela. Não vai precisar fazer mais nada para se vingar, Gui.
Ele olha para Justos e enxuga as lágrimas. Não tinha pensado por esse lado.
_Você tem razão.
_Daqui a uma semana vocês vão estar juntos. Coloque sua melhor roupa, esteja muito bonito. Hoje você é um empresário, não é mais um capataz.
Guilherme sorri.
_Você é brilhante. A raiva não estava me deixando enxergar, que a melhor maneira de me vingar dela, é mostrar a ela que encontrei o amor pela filha dela. Só você mesmo para me fazer enxergar isso.
Guilherme e Justos se abraçam forte. Tinha acabado de descobrir que Helena não se chamava Helena Silva, e sim, Helena Decresson.
_Farei o que você me diz. Vou me arrumar como um Deus. Vou comprar uma roupa nova e comprarei flores.
_Gostaria de estar lá para ver isso. Olhar para a cara da toda poderosa Edith Decresson. Perceber que o homem que ela amou, ama na verdade a sua filha mais velha. Não falei que não precisava fazer nada que a vida se encarregava de dar a resposta certa, na hora certa?
_Eu sei, mas e Helena? Estou chateado, ela mentiu para mim.
_Como você mentiu para ela. Disse que iria arrumar as coisa para a chegada de seus pais, e na verdade veio ver o seu negócio.
Ele percebe que Justos estava certo. Seu erro era tão grave quanto o dela. Os dois teriam que conversar muito.
...
No Rio de Janeiro...
No dia seguinte...
Guilherme abre a porta de seu apartamento. Helena estava sentada, vendo televisão. Ao ver a porta abrir, ela sorri e corre em sua direção. Ele a abraça, e a beija, friamente.
_Aconteceu alguma coisa? Não está feliz por me ver? _Pergunta Helena assustada.
Ele coloca sua pasta sobre a mesa e a abre. Pega a revista e a entrega. Helena olha aquela revista e estranha. Ele abre na reportagem e mostra a ela a foto dela e de sua mãe.
_O que é isso?
_Até quando você ia me esconder que pertence a uma das famílias mais tradicionais desse país? Você é uma Decresson e não me diz nada? Por que?
Helena olha para seu noivo e seus olhos se enchem de lágrimas. Sempre soube que um dia seu segredo iria ser descoberto.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
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