Capítulo 4
No Hospital da Cidade de Passaforte...
Guilherme abre os olhos.
_Bom dia.
Ele se levanta com pressa. Sente uma ferroada na testa. Sente dor. Volta a se deitar.
_Ai, que dor.
O bondoso senhor que estava ao seu lado sorri.
_ Deve ser estranho mesmo, acordar num lugar onde não se conhece.
_Não sei onde estou e não me lembro o que aconteceu. Estou meio atordoado.
_Imagino. Você apanhou muito. Levou uns pontos na testa.
Guilherme passa a mão na cabeça e vê que estava com um curativo. Sorri para ele meio sem graça.
_Onde estou?
_Estava caminhando pela estrada, fui falar com você, saber se queria uma carona e então você desmaiou.
Guilherme olha para os lados e vê que estava num Hospital. Aos poucos se lembra do que tinha acontecido, mas não gostaria que outras pessoas ficassem sabendo.
_Agora me lembro, fui assaltado _diz Guilherme, sentando-se na cama com dificuldade.
_Coitado. Fique tranqüilo. Agora está bem.
_Muito obrigado, se não fosse o senhor, não sei o que teria acontecido comigo.
_Vamos fazer o seguinte, me chame pelo nome. Essa história de senhor parece que tenho mais de cento e cinqüenta anos. Pode me chamar de Justos Barcelos.
Ele ri da piada de Justos. Estende sua mão e o cumprimento.
_Meu nome é Guilherme. Não estou passando por um momento muito bom. Queria apenas trabalhar, e fui assaltado, não sei nem por que não me mataram.
_Prazer Guilherme. Por que é um homem bom. Senti isso.
_Obrigado por tudo. Não vou poder pagar agora por tudo isso, seu Justos, mas se tiver um lugar para ficar, um prato de comida, trabalho para o senhor.
_Tem sim. Só tem uma coisa, esse negócio de seu também não combina. E novamente você se esqueceu do senhor. Assim não te dou trabalho. Vão achar que eu sou um velho de cem anos de idade.
Justos gostava de fazer as pessoas rirem. Estava conseguindo. Mesmo machucado, Guilherme consegue sorrir.
_Desculpe, é que meu pai sempre me disse para tratarmos bem os mais velhos, sabe como é.
_Você é um rapaz muito educado. Quando o vi ali, daquele jeito, ensangüentado, rasgado, me assustei. Alguma coisa me disse para ajudá-lo. Vou querer sua ajuda sim. Uma pessoa boa, sincera e com vontade de trabalhar, não se nega nada. Só que para isso tem que ficar bom, se recuperar. Pode levar um tempo. Realmente achei que ia morrer, pela quantidade de sangue que perdeu.
_Vou sair do Hospital quando? Não tenho como pagar isso tudo. Minha nossa, o que eu vou fazer...
Justos vê aflição nos olhos de Guilherme. Com calma, ele se aproxima dele e pega em sua mão.
_Calma, meu rapaz, vou ajudar você. Eu pago tudo.
_Isso não é justo.
_Por que não? Meu nome não é Justos a toa.
_Vou trabalhar com o senhor, vou pagar tudo.
_Guilherme, aceite minha ajuda que eu aceito a sua. Sem orgulho, ok?
Guilherme sorri para o amigo. Ele era um homem muito generoso.
_Pensei que ia sair do Hospital hoje.
_Bem, hoje ainda não. Vai ficar de molho por aqui. Sem maiores problemas, faço companhia. O bom nessa história toda é que ganhei uma companhia. Ficar sozinho é muito ruím, sabia?
_Eu imagino. O senhor mora onde?
_Numa Fazenda a cinquenta quilômetros dessa cidade.
_Qual o nome dessa cidade?
_Passaforte. Uma cidade pequena. Minha Fazenda é grande, eu vivo disso, vender minhas verduras, meus queijos, minhas geléias de frutas.
_E dá conta disso tudo? Sozinho?
_Tenho meus funcionários, dois rapazes muito espertos. Meus netos.
_Posso me juntar a vocês.
_Claro que sim, mas precisa se recuperar.
_Com certeza, seu Justos.
Os dois ficam conversando por horas. Começavam a se conhecer. Guilherme agradecia o surgimento de Justos em sua vida. Era um anjo que apareceu para salvá-lo.
...
Edith estava na sala de jantar. Estava experimentando a comida da nova cozinheira, Guida. Experimenta de tudo um pouco, sob o olhar atendo de Marco, seu mordomo.
_Muito bom, Marco. Eu sabia que estava fazendo uma boa escolha para mordomo principal. Guida fica. Tem um tempero apurado e pode fazer qualquer coisa que eu pedir.
Marco sente-se mais aliviado. Edith Decresson era uma mulher de gosto fino. Não gostava de qualquer tempero.
Assim que termina de jantar, passa suas últimas ordens para os empregados, pega seu carro e volta para Montes Claros.
...
Dez anos depois... 1980...
Edith estava sentada em sua mesa, na sala da Presidência, quando a porta se abre e Helena entra. Sua secretária vem logo atrás.
_Mil desculpas, dona Edith, mas ela entrou igual a um furacão _diz Melissa.
_Eu vi, Melissa, não sou cega _diz Edith sendo grosseira com sua secretária.
_Fale direito com seus funcionários. Eles são seres humanos, pode ser? _Pergunta Helena encarando-a .
_Saia Melissa, não precisa chorar. Mesmo eu pedindo milhares de vezes para não ser incomodada, eu sei muito bem que o temperamento de minha filha mais velha é insuportável, e você não tem culpa. Saia _diz Edith olhando para Helena.
Melissa abaixa a cabeça, enxuga as lágrimas e fecha a porta. Sabia muito bem como era sua patroa. Extremamente exigente. Já tinha proibido que as pessoas entrassem sem serem anunciadas. Helena se aproxima. Coloca a bolsa no sofá, diante de onde estava sua mãe.
_Eu estava lendo um contrato com fornecedor. Afinal, alguém nessa família tem que trabalhar.
_Como se eu não trabalhasse. Fui para a Faculdade e dentro de dois anos estarei me formando. Faço questão de estagiar, para ter o meu dinheiro e não depender do seu.
_Sempre respondona, sempre dona de suas vontades. Pode pelo menos uma vez na sua vida não me atirar quatro pedras? Será que é tão difícil a gente sentar e conversar de maneira civilizada? _Pergunta Edith olhando sério para sua primogênita.
Helena escuta o que sua mãe diz. Senta-se diante dela.
_Posso falar com você? Está melhor assim?
_Muito melhor.
_Vim aqui para reivindicar a herança de meu pai.
_Um direito seu.
_Que você não quer me dar.
_Não é isso, Helena. Estou preservando nosso patrimônio. Vou fazer um levantamento de quanto seu pai deixou para você e coloco em sua conta.
_Dois milhões de dólares. Por que me enrolar mais? Estava no testamento dele.
_Não estou te enrolando. Esse testamento tem mais de dez anos, não me obrigue a lembrar disso, estou ficando velha.
_Aqui está tudo o que você precisa saber.
Helena lhe entrega um relatório. Edith fica impressionada com a eficiência de sua filha. Via que era tinha puxado seu pai. Possuía um faro para negócios impressionante. Sabia que o futuro do Império Decresson estava garantido com Helena assumindo os negócios.
_Belo relatório. De uma eficiência incrível. .
_Não vai ler?
_Não preciso. Dei uma folheada e já percebi que ele está ótimo. Você pode ter todas as razões do mundo para me odiar, Helena Decresson. Só que hoje você é o que é por causa da maneira que eu criei você.
Ela sorri para a mãe.
_Em Colégios Internos, longe da convivência de meu irmão. Tanto medo de que Felipe goste mais de mim do que você. Definitivamente nunca gostamos uma da outra, vamos ser sincera.
Edith não gosta do que ouve.
_Amo meus filhos. Amo você. É uma injustiça a maneira como fala isso. Sempre gostei muito da amizade de vocês, mas dê o braço a torcer. Você sempre foi uma menina que me deu muita dor de cabeça. Seu irmão sempre foi mais tranqüilo.
_Você ama o Felipe. Não me ama. Nunca me amou, mamãe.
_Não fale isso, Helena. Você sempre teve tudo o que quis.
_Disso não posso negar. Realmente. Agora e o carinho? O amor? Isso tudo quem teve foi o Felipe.
_Não acredito que veio aqui para me cobrar isso! Não acredito que você veio fazer com que eu perdesse meu tempo com essas baboseiras de amor e carinho, por que Felipe isso, Felipe aquilo. Sabe muito bem que sou uma mulher ocupada. Tenho que cuidar de um império que em breve, será seu.
_Tudo bem, vamos mudar de assunto, já que amor e carinho não são muito a sua praia, não é verdade?
_Não me tire do sério, entendeu? Cada vez mais atrevida.
_Desculpe. Mudando de assunto. Vim aqui dizer que pode passar os dois milhões de dólares para a minha conta. Vim aqui também para pedir uma coisa para você.
_Pode falar. Amanhã passo o dinheiro para sua conta. Sobre o pedido...
_Quero que você faça um jantar daqui a uma semana. Coisa simples, só com a família.
Edith estranha aquele pedido.
_Um jantar? Para que?
_Estou noiva, mamãe. Quero oficializar meu noivado e apresentar meu noivo.
A Toda Poderosa do Império Decresson se levanta. Não estava acreditando no que estava ouvindo.
_Noiva? E só agora você me diz?
Helena sorri para a mãe.
_Ele me pediu hoje em casamento. Peguei nosso jato justamente para vir falar com você.
Aquilo pega Edith de surpresa.
_Eu o conheço?
_Não. Nem ele sabe que sou uma Decresson.
_Não entendo. Por que ele não sabe que você pertence a uma das melhores famílias desse país?
_Por que ele não é rico.
Aquilo é um baque para Edith. Sua filha mais velha estava lhe dizendo que ia se casar com um pé rapado.
_Tem certeza que quer se casar com um pé rapado, sem eira nem beira?
_Tenho. Eu o amo mamãe. Estamos juntos a dois anos.
_Como pode isso? Você só completou dezoito anos semana passada.
_Ele é mais velho que eu dez anos.
_Que loucura, Helena, tudo isso acontecendo em sua vida e eu não sei de nada.
_Desculpe, mamãe, mas conversa não é o seu forte.
Naquilo Edith sabia que sua filha tinha razão. Havia um abismo entre elas. Foi naquele momento que ela percebe há quanto tempo as duas não conversavam.
_Você deve Ter um monte de reclamações a meu respeito.
_Uma delas é Ter levado uma surra ao não querer dar um abraço em você, no dia que soube da morte de meu pai.
Edith olha sério para Helena. Ela não esquecia aquela história. Era um ato da qual ela não se orgulhada de maneira nenhuma.
_Esqueça isso, minha filha. Eu estava transtornada. Isso foi a tanto tempo.
Helena olha para ela séria.
_Nunca me esquecerei disso.
_Tudo bem. Você há de convir, que eu me arrependi. Tanto é que depois nunca mais eu toquei num fio de cabelo seu.
_Isso é verdade. Sua agressão e seu desprezo ficaram evidentes nas minhas transferências de Colégio, até a minha ida para a Europa. Só que agora completei dezoito anos e resolvi voltar para o Brasil, para assumir meu lugar de direito.
_Que bom.
_Não seja sínica, mamãe. Você me odeia e eu a odeio. Nos aturamos para que Felipe não sofra tanto.
_Sou sua mãe, Helena, mais respeito.
_Chega de conversa. Vai fazer ou não o jantar?
_Tudo bem. Vou fazer um jantar só para nós.
_Você ainda continua alojada naquele alojamento horroroso?
_Mãe, qual o problema?
_Eu sempre quis comprar um apartamento para você, seria mais fácil. Gastar dinheiro com uma instituição do governo.
_O valor é irrisório.
_Só que você é uma Decresson. Não pode se misturar. Minha nossa senhora, eu planejei um casamento para você. Tantos rapazes lindos e milionários, e você escolhe um que não deve ter dinheiro nem para andar de ônibus. Seis anos estudando na Europa para ir morar num alojamento vagabundinho de estudantes de Administração. Você se contenta com tão pouco minha filha.
_Você só se preocupa com o nome. Impressionante. Foi por isso que troquei o meu nome pelo seu nome de solteira.
Edith se levanta. Caminha em direção a filha e com carinho passa a mão e seus cabelos dourados.
_Minha querida. Hoje posso dizer que fui correta em levar você na linha dura. É inteligente, excelente aluna e me dá muito orgulho. Gostaria de ter podido fazer você perder essa simplicidade. Temos muito dinheiro, Helena Decresson. O nosso nome abre portas. Você devia saber disso.
_Eu prefiro ser uma pessoa simples, mamãe, não vejo mal nenhum nisso.
_Você é bem filha de seu pai mesmo.
_Não toque no nome do meu pai. Ele não está aqui para se defender.
_Você sempre o amou mais do que a mim, não é verdade?
Ela olha para a mãe.
_Isso não é verdade. Nós nos dávamos muito bem, ao contrário de nós duas.
_Bem, vou ligar para Laura e Julio prepararem tudo. Uma pena você não ouvir a sua mãe, e se casar com um cara rico, bonito, inteligente.
_Dinheiro é muito importante para você, não é, mamãe? _Pergunta Helena irônica.
_Sim, é ele que move o mundo, e graças a Deus nós temos muito.
_Posso fazer uma pergunta?
Edith olha para a filha e sorri.
_Faça, se eu quiser responder...
_Você não amava meu pai, amava?
Ela encara a filha.
_Nunca amei seu pai.
_Eu sempre soube disso.
_Ele matou o homem que eu amei.
_O Homem que você o traia, não é verdade?
_É verdade.
_Você consegue ser desagradável quando quer, sabia?
_Seu pai seqüestrou a família daquele pobre coitado. Pelo telefone torturou aquela mulher e aquela criança. O rapaz não agüentou e deu um tiro em sua cabeça, na minha frente e na frente de seu pai. Depois que conseguiu fazer com que ele se matasse, mandou matar sua família. Nunca perdoei Kleber Decresson por isso.
Helena olha para a mãe e seus olhos se enchem de lágrimas.
_Por que você era uma adúltera. Traia meu pai com esse homem.
_Veja lá como a senhora fala comigo, sua garota atrevida.
_Nunca a perdoei pelo seu sofrimento.
_Então estamos quites. Quando ele morreu, abri um champagne para comemorar sua morte.
_Você é uma mulher cruel. Cada dia que passa eu vejo melhor quem você é. A minha sorte é que completei dezoito anos e não manda mais em mim.
_Helena, saia, tenho mais o que fazer. Vou pedir para que Julio e Laura façam o jantar, agora saia, cansei de perder meu tempo com você.
_Não se esqueça que aquela casa é tão minha quanto sua. Vou viver lá com meu marido.
_Faça como você quiser.
_Não sei por que Deus me deu uma mãe como você.
_Se não sair nesse momento, vou chamar os seguranças.
_Vai chamar os seguranças para me expulsarem? Ficou louca? Não vou ser expulsa da minha empresa.
_Ela ainda não é sua. Eu estou viva, portanto, ela é tão minha quanto sua.
_Você é insuportável.
_Minha nossa senhora, Helena, como é difícil conversar com você, minha filha.
_Por que mamãe, por que não me manipula como faz com os outros?
_Escuta, esse seu noivo não está dando conta do recado não? Quando amamos Helena, ficamos felizes, nosso humor melhora, nossa pele melhora.
_Meu noivo não é rico. Não faço casamentos por conveniências e traio o meu marido com o primeiro capataz que eu vejo numa fazenda.
Edith coloca o contrato sobre a mesa e aproxima-se de Helena. Sua filha mais velha a encara, sério. Sem piedade, Edith dá uma bofetada na cara de Helena. Ela se assusta, mas revida na mesma intensidade.
A agressão de uma contra a outra é vista por Felipe, que tinha entrado no momento exato. As duas percebem sua entrada.
_Só falta agora uma esfaquear a outra. Eu já tinha visto tudo, mas mãe e filha se agredindo, essa para mim superou todas as minhas espectativas. _diz Felipe indignado.
As duas ficam sem graça e uma se afasta da outra.
quinta-feira, 14 de maio de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Fala carlos beleza cara po eu li todos os capitulos por causa de tempo mas esse ficou muito bom e como vc ja tinha falado alguma coisa la na white de pra entender cara mostra isso pra alguma emissora pois fico bem legal parabens e sucesso!
ResponderExcluirum grande abraco