quinta-feira, 14 de maio de 2009

Armadllhas do Destino - Capítulo 10

Capítulo 10


Julio e Laura estavam tristes. O filho mais novo ia embora da Fazenda Pingos de Ouro. Jussara sentia muito a ida do irmão, era seu companheiro. Edith estava saindo para o trabalho, quando percebe a movimentação. Ela se aproxima de seus empregados. Olha para Márcio e estranha.
_Para onde ele está indo? _pergunta Edith parada ao lado de Julio e Laura.
_Vai para o Rio de Janeiro, estudar _diz Laura chorando.
_Ele não é muito novo para decidir sobre isso não? _Pergunta Edith encarando o menino.
_Na verdade, dona Edith, estou indo para um lugar que eu possa ficar longe da senhora _diz Marcio com ódio.
Edith se impressiona com a petulância do rapaz.
_Marcio, que isso, ela é nossa patroa _diz Julio abalado.
_Ela é sua patroa, minha não. Isso vai mudar. Vou estudar, vou ser alguém na vida e virei aqui para tirar você das garras dessa mulher _diz Marcio sério.
_Que menino petulante. Você nasceu aqui, cresceu aqui. Praticamete eu o vi crescer. Agora, de uma hora para outra resolveu me atacar dessa forma. _diz Edith olhando para os pais do garoto.
_Por favor, Dona Edith, ele acordou estranho hoje. Está assim, atacando a tudo e a todos _diz Laura com o lenço nas mãos, enxugando as lágrimas.
_Nada que uma boa surra não resolva. Nessa idade quem manda somos nós. Se ele está assim é por culpa de vocês. _diz Edith séria.
_Vamos embora, pai. O ônibus vai sair logo _diz Marcio sério.
_Tudo bem, meu filho. _diz Julio com seus olhos cheios de lágrimas.
_Vá e não demore, ainda tem muito serviço para você nessa casa _diz Edith de maneira bem desagradável.
Marcio sai do ônibus e anda em direção a Edith. Ao chegar, para diante dela. Edith acha estranha a reação dele.
_A senhora é o demônio em forma de mulher. Aproveite bem eles como escravo, por que quando eu voltar, eles vão embora comigo. Ainda vai ouvir falar de mim. _diz Marcio.
Em seguida, aproxima-se de Jussara e se despede. Sua irmã mais velha não consegue falar nada, chorava muito. Em seguida ele entra no carro. Julio olha para sua patroa, que estava sem reação. Entra no carro, dá partida e sai.
Laura olha para Edith.
_Desculpe meu filho dona Edith, hoje ele acordou muito estranho.
_Tudo bem, normalmente meninos nessa idade são bem revoltados mesmo. Não concordo com essa política de não bater em nossos filhos. As vezes uma chineladas ajudam muito. Vou trabalhar. Cuide do almoço.
_Sim senhora.
Edith vai para seu carro. Laura, Julio e Jussara vão para a Casa Grande da Fazenda.

...

Um ano depois... 1982...
Felipe estava com Lucia, diante de um Padre. Guilherme, Helena eram os padrinhos. Sara observava tudo muito feliz. Estavam se casando muito cedo, ambos com dezessete anos. Assim que os noivos juram fidelidade eterna, eles trocam as alianças e se beijam.
Guilherme e Helena estavam emocionados. Tinham deixado Lisa com a babá.
_Eu imagino quando Edith souber disso.
_Ela não vai poder fazer mais nada.
_Agora eles legalmente são adultos.
_Meu medo é que sua mãe se vingue de Lucia e Sara.
_Você acha que ela vai querer descontar nelas?
_Sim. Sua mãe é uma mulher muito vingativa.
_Sem problemas. Não há nada que ela possa fazer. Graças a você, conseguiu um grande patrocinador para Felipe e suas obras. Ele está muito feliz.
_Não existe nada que eu possa fazer para um dia conseguir pagar o que seu irmão fez pela gente. Além do mais, ele é muito talentoso. Assim que se formar em artes plásticas, vai ser um grande escultor.
_Vou ajudá-lo também.
Os dois se abraçam.

...

Um ano depois... 1983...

Edith estava em sua sala descansando. Naquele momento, a campainha toca. Ela se levanta.
_Deixa que eu atendo. _diz Edith ao mordomo, que havia aparecido.
_Sim senhora _diz Julio.
Ele volta para a cozinha para ajudar a esposa. Ela abre a porta e se depara com Felipe.
_Felipe, você voltou de viajem quando? Não me avisou nada. Passou um ano viajando, e agora chega de surpresa! _Pergunta Edith feliz.
_Posso entrar? _Pergunta Felipe.
_Claro, meu amor, essa casa é sua _diz Edith.
_Lucia pode entrar comigo? _Pergunta Felipe.
Edith fica enfurecida. Felipe entra e Lúcia estava de costa para a porta.
_O que essa moça faz aqui? _Pergunta Edith com raiva.
Lucia se vira e olha para Edith. Estava com uma criança no colo.
_Podemos entrar, dona Edith? _Pergunta Lucia.
_Claro _diz Edith surpresa.
Os dois entram e vão para a sala. Edith fecha a porta.
_Temos muitas coisas para conversar, mamãe.
_Felipe, só me explique uma coisa. Você me falou que ia viajar, passar um ano na Europa. Não me diga que ela... _E é interrompido por Felipe.
_Eu fui viajar sim. A serviço. Fui a Europa e estou voltando. Voltando com Lúcia, ela foi comigo.
_Não estou acreditando nisso. Se eu soubesse que ela iria jamais tinha dado dinheiro para você. Não percebe que ela é uma caça níqueis que quer o seu dinheiro?
_Não fale assim da minha esposa _Berra Felipe encarando-a .
Aquilo pega Edith de surpresa.
_Vocês se casaram e não me falaram nada _diz Edith, sentindo-se traida.
_Será que nem o seu neto vai fazer a senhora entender o quanto amo o seu filho? _Pergunta Lucia com a criança no colo.
Ela olha para o filho e sorri. Olha para o colo da nora e não acredita. Ao se aproximar, sorri. Emocionada.
_Posso? _pergunta Edith se aproximando. Queria pegar seu neto no colo.
_Claro _diz Lucia entregando o bebê a ela.
_Minha nossa senhora, ele é a coisa mais linda que eu já vi na minha vida _diz Edith sorrindo. Não consegue segurar a emoção e sente lágrimas escorrerem pelo seus olhos.
_O nome dele é Pedro Decresson. Nasceu a poucos dias. _diz Felipe olhando com amor para seu filho.
_Nossa, pela minha cabeça está um turbilhão. Vocês casados e com filhos. Eu não sei o que fazer, o que pensar. _diz Edith abalada.
_Apenas aceite definitivamente que Lucia é a mulher de minha vida e nada vai mudar isso. Poderia Ter participado de nossa felicidade, de nosso casamento, do meu crescimento profissional, mas não sabia qual seria sua reação ao saber que Lucia estaria ao meu lado _diz Felipe abalado.
_Sua irmã sabe disso? _Pergunta Edith séria.
_Sim, ela me apoiou em tudo. _diz Felipe olhando para a mãe.
Edith olha para Lucia e sorri.
_Você conseguiu o que queria, sua caça níqueis _diz Edith humilhando Lucia.
Lucia aproxima-se de Edith e lhe tira o filho do colo. Seus olhos se enchem de lágrimas.
_Vamos embora, Felipe. Sua mãe não vai me aceitar nunca _diz Lucia abalada.
Felipe aproxima-se de Edith.
_Vai querer mesmo se privar de ver seu neto crescer, não é? _Pergunta Felipe encarando a mãe.
_Não, não vá embora, por favor. É que é difícil para mim saber que você está casada com uma moça pobre. Por favor, não me prive de ver meu neto crescer. Eu vou tentar aceitar Lucia, eu prometo. _diz Edith engolindo aquilo a seco.
_Bem, vou construir uma casa para nós aqui na Fazenda. Se a senhora não for contra. Terei mais privacidade com minha esposa _diz Felipe.
_Então vocês vem morar aqui _diz Edith sorrindo.
_Claro. _diz Felipe.
_Com essa condição, de termos a nossa própria casa. Assim poderemos Ter nossa vida sem a sua intromição. A casa vai ser minha, não quero que ninguém, nem mesmo a senhora interfira em nossa vida _diz Lucia olhando para Edith, sem medo.
_Tudo bem. Tenho que fazer um sacrifício para ver meu neto crescer. Gosto da família toda reunida. Vai ser muito bom. Ter você e sua irmã morando aqui. _Diz Edith encantada com o neto.
Edith teria que engolir Lucia se quisesse ver seu neto crescer. Ele era um legítimo Decresson. Seria missão dele cuidar do patrimônio da família.

...

Cinco anos depois...
1988...

Guilherme e Helena conseguem superar a perda do filho criando Lisa com muito amor. Felipe e Lucia tem mais uma filha. Jéssica. A Família Decresson recebe seus novos descendentes. O Conglomerado fecha os últimos cinco anos com lucro, aumentando as filiais pelo país.
Edith faz de tudo para boicotar o trabalho de Guilherme, mas não consegue destruíl-lo. Edith via que Guilherme próspera na empresa a olhos vistos.

...

Sala de Reuniões...
Helena se levanta para falar. Edith não entende o por que daquela reunião.
_Bem, minha mãe foi contra a reunião. Só que sou uma pessoa muito teimosa e resolvi chamar todos os acionistas do Conglomerados Decresson.
_Todos sabem que você é bem teimosa _Sorri Edith para sua filha.
_Tenho aqui os números das filiais de São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre e Brasília. Todos concordam que eram filiais que nos davam muito prejuizos, não é verdade? _Pergunta Helena olhando para todos.
Todos concordam com a afirmação em uma só voz.
_Helena tem razão no que diz, inclusive, era da vontade de nossa Presidente fechar essas filiais _diz Guilherme sério, olhando para todos.
_Só que nós enviamos o funcionário Guilherme Souza. Ele passou dois meses em cada uma delas e conseguiu reerguer uma por uma _diz Helena olhando para Edith.
A matriarca dos Decresson percebe que sua filha estava com a razão. Hoje, por causa de Guilherme, não havia necessidade de fechar as filiais. Ela tinha enviado informações para espiões nas filiais com o intuito de derrubar tudo o que seu gênro faria. Mesmo com toda a sabotagem, Guilherme conseguiu acertar o rumo dessas filiais. Era estranho para outras pessoas, se elas descobrissem que Edith mandou fazer aquilo, perceber que a própria presidente do grupo estava sabotando suas lojas. Só que ela faria qualquer coisa para derrubar definitivamente Guilherme Souza, e provocar sua demissão.
Em nada adiantou suas artimanhas. As cinco, na atualidade, se transformaram nas filiais de maior lucro para o grupo. Ela tinha que concordar que, Guilherme Souza era um administrador de empresas de primeira linha.
A sabotagem de Edith não tinha ficado somente restrita ao Grupo. Ela tinha sabotado a GS Wind, a empresa de Importação e Exportação de Guilherme. Através de seu prestígio, fechou as portas da empresa para diversos fornecedores, serviços e produtos. Novo fracasso. A maioria dos fornecedores da empresa de Guilherme era fieís. O nome do Presidente das Empresas tinha fama de bom negociador e tinha crédito. Ao se formar, ele agiu preventivamente, sabendo das artimanhas que Edith iria fazer para cercá-lo e destruí-lo. Tudo em vão. Hoje, Guilherme era um executivo de primeira linha e com a sua entrada para o Grupo Decresson, ele conseguiu com a ajuda de sua esposa duplicar a fortuna que Edith já havia aumentado.
Além disso, Guilherme era um homem justo, um homem admirado por seus subalternos. Tinha conseguido mostrar a Edith que era impossível destruir um profissional honesto e digno como ele.
Um dos diretores financeiros, Bruno Vilares, se levanta. Interrompendo Helena.
_Permite que eu fale, Helena? _Pergunta Bruno.
_Claro, Bruno, fale. _diz Helena.
Bruno era um grande aliado. Sabia exatamete o que ia falar.
_Senhores diretores e acionistas. Estou aqui com relatórios impressionantes, do que é o Grupo sem Guilherme Souza, e do que é o grupo com Guilherme Souza. Esse homem aumentou nosso faturamento, abriu novas filiais. Sete ao todo, pelo Brasil. Salvou cinco da falência e as transformou nas mais rentáveis para nós. É por isso, senhores, que eu proponho reativar o cargo de Vice-Presidente de nosso grupo. Extinto desde a morte de Kleber Decresson. Não podemos esquecer que a nossa presidente, Edith Decresson acumulou esses dois cargos. Ao assumir a Presidência, mas hoje, temos alguém que tem condições de assumir esse cargo, para ajudar a nossa presidente a dividir responsabilidades. É com isso que proponho o nome de Guilherme Souza para Vice-Presidente do Conglomerados de Supermercados Decresson. _diz Bruno olhando para ele.
Ele se levanta e sorri.
_Muito obrigado pela confiança. Acredito que posso ajudar Edith Decresson a dividir um pouco suas responsabilidades. _diz Guilherme olhando para ela.
Todos se sentam. Edith se levanta. Olha para Guilherme e percebe que ele tinha conseguido a sua tão sonhada vingança. Seu crescimento dentro do Conglomerado com sua competência.
_Vamos votar então. Quem acha que Guilherme Souza deve ser nomeado Vice-Presidente de nosso grupo, levante a mão. _diz Edith, com esperanças, de que a diretoria fosse contra aquela proposta.
Só que para seus desespero, Guilherme é eleito Vice-Presidente por uma quase unanimidade.. Contra ele somente Edith e seu aliado, o advogado Rogério. Helena sente-se orgulhosa pelo marido, que agora éra o nome mais forte da empresa depois de Edith.
Ainda de pé, na cabeceira da grande mesa, ela faz uma nova proposta.
_Gostaria muito que o gabinete da Vice-Presidência fosse transferido para o Rio de Janeiro. Recentemente soube notícias de que alguns funcionários fortes na filial da cidade maravilhosa estavam se rebelando, nada melhor que mandar para lá nosso maior executivo, capaz de acabar com essa possível rebelião _diz Edith olhando para ele.
_Sem problema nenhum, podemos ir, não é, Guilherme? _Pergunta Helena sorrindo para o marido.
_Você não, Helena, somente ele. Preciso de sua ajuda aqui em Montes Claros. Acho que os diretores concordam que sua presença aqui na sede é essencial _diz Edith sorrindo para sua filha.
Helena não acredita no que sua mãe estava propondo. Estava usando a empresa para deliberadamente afastar seu marido de seu convívio. Tanto ela quanto ele percebem o jogo de Edith Decresson. Tinha sofrido sua maior derrota diante da Diretoria do Grupo, mas se ela estava indo para o burado, não iria sozinha.
_Realmente, Helena, sua mãe precisa de sua ajuda aqui em Montes Claros. É muito querida pelos funcionários, um afastamento agora poderia causar mal estar entre eles _diz um dos diretores.
_Quem concorda com a transferência de Guilherme para o Rio de Janeiro, levante a mão _diz Edith pedindo a votação.
Toda a diretoria concorda, movida pelos boatos de uma crise interna na sede do Supermercado Decresson no Rio de Janeiro. Helena e Guilherme se entreolham, abalados. Podem considerar aquilo uma meia vitória e uma meia derrota.
A reunião acaba.

...

Edith estava sentada em sua mesa, quando Helena abre a porta do gabinete da Presidência e a fecha.
_Posso saber que palhaçada é essa?
Sua mãe sorri para a filha.
_Não estou entendendo onde quer chegar?
_Transferir meu marido para outra cidade e não deixar que eu vá.
_Vamos pensar somente em nossa empresa. Ele é imprescindível. Alguns funcionários da sede estão insatisfeitos e a presença de Guilherme pode acabar com isso. Tinha que pensar na empresa, nem que para isso, tivesse que sacrificar um pouco o casamento de vocês.
_Mamãe, como você é sórdida.
_Veja lá como fala comigo, Helena.
_Você tentou de tudo para destruir meu marido na empresa. Não pense você que eu não sei o que você fez com as filiais. Suas sabotagens sujas, para denegrir a imagem dele. Se um dia eu conseguir ligar seu nome a elas, eu tiro você da presidência.
_Não sei do que você está falando. E ainda está para nascer alguém que consiga me tirar da minha empresa.
_Ela é tão minha quanto sua. Não se esqueça disso. Você estar na presidência é um mero detalhe.
_Tem medo que seu casamento acabe? _Pergunta Edith sorrindo para sua filha.
_Achei que meu casamento ia acabar quando meu filho morreu, mas ele não acabou. Você bem que gostaria que isso acontecesse.
_Nunca fui a favor de seu casamento, sabe disso. Como nunca aceitei o casamento de seu irmão. Eu ainda vou conseguir separar vocês, para que possam fazer um casamento a altura do nome Decresson.
_Isso nunca vai acontecer.
_Acredita mesmo que só eu ia perder na reunião da Diretoria?
_Cada dia que passa estamos em lados opostos, mamãe. Ás vezes desconfio que você não quer só destruir meu casamento. Você quer Guilherme para você.
Edith fecha o sorriso e a encara.
_Você é um ser desprezível, Helena. Nunca me passou pela cabeça ficar com seu marido.
_Eu ainda não estou convencida disso. Tudo bem, essa você venceu. Não vai conseguir nos afastar. Ficarei aqui durante a semana. Nos finais de semana estarei com ele.
Helena encara sua mãe. Em seguida se retira. Edith sorri.
_Nunca vão Ter paz. Nem você, minha querida filha, nem seu marido. Enquanto eu existir.

...

Helena entra em sua sala. Seus olhos se enchem de lágrimas. Alguém bate na porta. Ela pede para entrar. Era seu marido.
_Sua secretária foi almoçar, então resolvi vir te ver.
Ela se levanta. Caminha em direção a seu marido. Ele fecha a porta e os dois se abraçam.
_Como vai ser agora?
_Nada vai mudar.
_Você vai Ter que morar no Rio de Janeiro.
_Eu sei, mas no final de semana estaremos juntos.
_Eu já estava achando você meio distante.
_Impressão sua meu amor.
_Jura que não estamos passando por uma crise?
_Juro.
_Vou te ver todos os finais de semana.
_Eu sei, o jato da empresa estará ao nosso dispor.
Helena e Guilherme se beijam apaixonadamente. Sabiam que não teriam paz. Edith sempre colocava um empecilho para atrapalhar a vida deles.

...

Marcio estava sentado em sua mesa. Tinha se formado em Advocacia. Era competente, honesto e de boa índole. Na sua cabeça, só pensava em tirar seus pais de Montes Claros, das garras de Edith Decresson. Trabalhava para um grupo de Advogados e teria uma audiência com a empresa que pagava quase metade do salário das pessoas na AG Advogados e Cia. Era a Decresson Supermercados. Naquele momento, a porta de seu escritório se abre. Era sua secretária.
_Marcio, ligaram a pouco do Aeroporto. O avião do grupo Decresson está esperando você.
_O avião particular? _Pergunta Marcio sorrindo, surpreso.
_Exatamente.
_Viu como estou melhorando de vida, Mercedes?
_É verdade. Impossível acreditar que você seria um dos advogados a lidar com o Conglomerado de Supermercados Decresson.
_Esse nome está no sangue. Meus pais são serviçais de Edith Decresson, eu cresci lá.
_Verdade, Marcio?
_Odeio essa mulher, ela os maltrata muito.
_Eu imagino. Aquela mulher deve ser arrogante demais.
_Põe arrogante nisso.
_Bem, é melhor você se apressar.
_Tudo bem, já vou indo, me deseje boa sorte.
_Boa sorte então.
Marcio pega sua pasta, se olha no espelho, arruma a gravata e sai. Mercedes olha para a mesa e dá um último retoque. Sempre que ele saia, ela deixava tudo arrumado para o seu chefe. Sabia que ele era seu chefe, mas ele não a tratava assim.

...

Guilherme sorri para a esposa.
_Fique tranquila, meu amor. Vamos passear muito no Rio.
_Eu sei, mas seria tão bom se eu fosse junto.
_Tem a nossa Lisa. Você sabe que ela não pode ficar sozinha com Edith. Ela faz distinção entre os netos. Jéssica e Pedro sempre ganham tudo e ela... se você não está por perto, já viu.
_Eu sei disso. Sou uma empresária dona de casa _Diz Helena sorrindo para o marido.
_Bem, deixa eu ir que eu tenho uma audiência com o advogado novo. Ele vai nos defender naquela causa dos empregados que perderam o emprego e invadiram o terreno da empresa, em Jacarepaguá.
_Tudo bem. Já almoçou?
_Não, depois eu almoço.
_Tudo bem.
Guilherme e Helena se beijam e ele sai da sala da esposa. Vai direto para sua sala. Pega o elevador e vai para o seu andar. Ao sair do elevador e entrar em sua sala, todos batem palmas para ele. Estavam felizes. Já sabiam que ele era o novo Vice-Presidente da empresa.
_Gente, que é isso, obrigado, assim eu fico sem jeito _diz Guilherme para todos.
_Você merece, chefe _diz Luiza, sua secretária.
_Obrigado. Estarei na minha sala. O advogado já chegou? _Pergunta Guilherme a Luiza.
_Ainda não, deve estar a caminho _diz Luiza.
_Tudo bem, quando ele chegar, faça-o entrar _diz Guilherme.
Ele entra na sua sala, ligar o ar condicionado, pois o dia estava muito quente. Serve-se de um café. Adoça a vontade e coloca a mesma ao seu lado. Pega uma revista e começa a ler.

...

Marcio para diante da sede do Conglomerado Decresson em Montes Claros. Ao vir do Aeroporto até a cidade, muitas lembranças lhe vinham a cabeça. A vida na fazenda, seus pais, sua irmã. A imagem de Edith, arrogante como sempre. Seu medo era dar de cara com ela. Não saberia aguentar revê-la sem que ela soubesse quem ele era.
Ele entra na Recepção, entrega sua identidade e diz que está indo conversar com Guilherme Souza. A recepcionista o aconselha pegar o elevador e parar no terceiro andar. Era a primeira porta a esquerda.
Seguindo a orientação, ele chega ao seu destino. Luiza estava atendendo um telefone e pede para que ele se sente e espere. Assim que ela desliga, o atende.
_O senhor é?
_O Advogado que vai Ter uma entrevista com Guilherme Souza.
_Claro, pode entrar, ele está esperando pelo senhor. Vou anunciá-lo.
_Nossa, senhor é muito estranho, não sou mais velho que você _Diz Marcio sorrindo.
_Desculpe, é a força do hábito.
_Agora sim, está melhor.
Luiza pega o telefone e liga para Guilherme. Ao tocar o telefone, Guilherme se assusta e esbarra na xícara, derramando o café sobre os documentos e sobre sua camisa.
_Droga _Diz Guilherme chateado.
Ele pega o telefone.
_Alô.
_Oi, Guilherm,e, o advogado chegou.
_Pede para ele entrar.
_Tudo bem.
Luiza desliga o telefone e sorri para Marcio.
_Pode entrar, ele te espera.
_Agora sim está melhor.
Marcio entra e percebe que Guilherme estava no banheiro. Ele olha para a mesa e vê uma xícara de café derrubada sobre alguns papéis. Guilherme sai do banheiro, estava sem camisa. Marcio estranha aquilo.
_Desculpe, derrubei café encima dos papéis que íamos revisar, sobre os acertos de sua defesa, sou um desastrado. Minha camisa foi pro brejo.
Guilherme sorri para Marcio. Aquilo o abala tremendamente. Já tinha saído com mulheres, mas sempre tivera certeza de que gostava mesmo era de homens. Com medo da sociedade, tinha namoradas, mas na verdade sua opção era outra.
Alguma coisa aconteceu ao seu coração ao olhar aquele belo homem a sua frente. Sem camisa, meio atordoado com a situação.
_Onde está a sua camisa?
_No banheiro. Olha, não precisa, eu...
_Deixa disso. Sem problemas.
Marcio larga sua pasta na cadeira e entra no banheiro. Pega a camisa, o sabão sobre a pia e passa na mancha de café. Guilherme o acompanha. Percebe que ele era muito descolado. Sabia se virar. Pendura a camisa no box, para secar. Assim que termina sai do banheiro. Guilherme estava impressionado com a desenvoltura do rapaz.
_Você é bem descolado nisso.
_Moro sozinho, tenho que saber me virar.
_Quantos anos você tem?
_Vinte anos.
Guilherme olha para aquele bonito rapaz a sua frente. Era loiro, tinha olhos azuis. Sempre tivera a certeza que gostava de mulheres, mas aquele rapaz possuia algo diferente. Não sabia explicar o que.
Marcio se senta e abre sua pasta. Guilherme retira os documentos sobre a mesa, molhados de café.
_Minha nossa senhora, eles se desmancharam. Como vamos fazer?
O jovem rapaz vai ao banheiro, pega papel para enxugar as mãos e coloca sobre a mesa. Assim que a mesa fica seca, ele os joga fora.
_É preciso passar um pano umedo. Se não vai dar formiga.
_Isso mesmo, aqui em Montes Claros é o que mais tem, formigas.
Marcio se afasta, pega sua pasta. Pega seus documentos e tira de dentro da mesma. Agora é sua vez de ser desastrado. As folhas caem da pasta e se espalham no chão. Na mesma hora, os dois se agaicham.
Eles quase batem com a testa um no outro, mas seus olhares se cruzam. Marcio sente o belo perfume de Guilherme e não consegue deixar de olhar para seu dorso bem feito e levemente peludo. Guilherme o olha, sem saber explicar por que seu coração batia mais forte que o normal.
Eles se levantam.
_Desculpe, agora é a minha vez de ser desastrado.
_Todos somos um pouco desastrados.
Aos poucos eles se afastam. Um sentia-se atraido pelo outro. Marcio percebe que ele era casado. Como explicar aquilo tudo que estava acontecendo.
Naquele exato momento, Helena entra na sala. Ela vê seu marido sem camisa e não entende nada. Eles se entreolham, abalados.
_Posso saber o que está acontecendo aqui? _Pergunta Helena sem entender nada.
_Peguei um café para mim e derrubei encima dos documentos de minha camisa, quando o Marcio chegou. Ele me ajudou a limpar a mancha de café, a camisa está lá dentro. Secando _diz Guilherme olhando para a esposa.
Ela olha para o rapaz e sorri.
_Márcio? Deve ser você _diz Helena sorrindo
_Sim, sou eu mesmo, vim aqui para uma reunião com o seu Guilherme, e o encontrei em apuros _Sorri Marcio.
_Desculpe a falta de educação, esta é minha esposa, Helena Decresson. Este é Marcio Flores, advogado que vai trabalhar na defesa da reintegração de posse de nosso terreno em Jacarepaguá _diz Guilherme.
_Muito prazer _diz Helena séria.
_Bem, acho que vamos Ter que adiar essa entrevista. _diz Marcio
_Pode ser para amanhã? _Pergunta Guilherme olhando para ele.
_Pode sim, ficarei na cidade até amanhã _diz Marcio.
_Tudo bem. _diz Guilherme.
Marcio cumprimenta Helena e Guilherme e se retira. Helena e Guilherme se olham.
_Coisa mais estranha _diz Helena.
_Como assim, meu amor? _Pergunta Guilherme sério.
_Tive a impressão que vocês ficaram constrangidos com a minha chegada _diz Helena séria.
Guilherme se aproxima dela.
_Que besteira! O rapaz é que ficou meio constrangido. Imagina, chegar na sala, para uma entrevista e encontrar um cara sem camisas, estranho não?
_Claro.
_Está imaginando o que?
_Que ele se interessou por você.
_Fico lisonjeado se isso for verdade, mas homem não é a minha praia.
Helena sorri para ele.
_Que bom.
Os dois se abraçam forte. Guilherme fica abalado. Helena tinha desconfiado de algo. Em relação ao advogado. Se ficou evidente para ela, teria que Ter mais cuidado, por que o interesse também havia partido dele. Era mais fácil para ele se aproveitar do fato de que Helena ser completamente apaixonada por ele, e estar cega em relação a isso.

...

Marcio sai do prédio e sorri. Estranho estar diante da mulher do cara que ele havia se interessado. De qualquer forma, não podia negar que Guilherme era o cara que ele havia sonhado a vida inteira. Educado, bonito, com um sorriso estonteante. Não podia esquecer o perfume. Era maravilhoso. Seu medo era não estar sendo retribuido nesse sentimento.
Atravessa a rua e vai para o Hotel de Montes Claros. Estava feliz, por que amanhã o veria novamente.

...

Marcio estava com poucas coisas. Seriam apenas dois dias. Quando acerta os detalhes de sua estadia, sobe para o quarto. Abre a porta e a fecha. Tira a roupa e vai tomar banho. Liga o aquecedor e coloca a água morna. Tira toda a sua roupa e entra embaixo da ducha. Deixa a água cair pelo seu corpo e fecha os olhos.
Não podia parar de pensar em Guilherme. Era algo que não podia controlar. Uma enorme atração.

...

No Final da Tarde...
Guilherme vê que sua camisa estava seca. Ao vestí-la, pensa em Márcio. Estava começando a se preocupar com aquilo. Como estar impressionado com um homem que viu há apenas algumas horas atrás.
Era difícil acreditar que estava interessado num homem. Em toda sua vida sempre fora disputado por mulheres. O amor de sua vida era Helena. O que havia de interessante naquele rapaz? Ele era homem... Nunca havia se interessado por um, mas aquele... estivera em seu pensamento a tarde inteira.
Ele se veste e sai. Estava assustado com o que estava acontecendo.

...

No Hotel de Montes Claros...
Marcio estava de toalha. Tinha acabado de tomar banho. Se olha no espelho e começa a fazer a barba. Assim que termina usa sua colônia. Quando escuta alguém bater na porta.
Ele sai do banheiro e estranha aquilo.
_Só um instante.
Quem seria naquela hora? Ao abrir a porta, se assusta. Era Guilherme.
_Desculpe, eu não sei o que eu estou fazendo aqui. Eu... eu... passei a tarde toda pensando em você, não sei o que está acontecendo.
Marcio abre a porta e olha pelo corredor. Não vê ninguém. Ele puxa Guilherme para dentro do quarto e fecha a porta.
_Não sei o que está acontecendo, mas também pensei em você.
Marcio vê que Guilherme suava frio.
_Nunca gostei de homem.
_Eu sempre gostei, mas nunca estive com um. Sempre namorei mulheres.
_Sou casado, amo minha mulher e...
Marcio não consegue segurar e o beija apaixonadamente. Um beijo forte, marcante. Guilherme tenta lutar, mas acaba se entregando. Aquela atração era mais forte que eles.

Armadilhas do Destino - Capítulo 9

Capítulo 9


Sara chega em casa e encontra Lucia arrumando as malas. Ela estranha a saída súbita de sua mãe.
_Você sumiu.
_Fui resolver algo que estava entalado em minha garganta.
Lucia estranha aquele comentário de sua mãe.
_Como assim, mamãe?
_Fui ver Edith Decresson.
Lucia olha para sua mãe e fica abalada.
_Por que?
_Por que fui dizer algumas coisas para aquela mulher horrorosa.
_Para que mamãe? Ela só vai ficar com mais ódio de nós.
_Eu a enfrentei. Aliás, eu a esbofeteei.
_O que? _Pergunta Lucia abalada.
_Sim, ela disse coisas que eu não gostei e eu não me segurei. Acertei a cara de Edith Decresson. Eu sei que fiz besteira, mas ela precisava de uma lição.
_Mãe, pelo amor de Deus, isso pode acirrar mais essa briga.
_Eu sei, mas vamos embora. Não veremos mais essa mulher, graças a Deus.
_Você não, mamãe, mas eu terei que conviver com ela, se vier a ficar mesmo com Felipe.
Sara sorri tristemente para a filha e as duas se abraçam.
_Calma, minha querida, isso tudo vai passar.
_Eu espero.

...

No almoço...
Edith estava em casa, tomando um suco de uva. Jussara e Laura tinham colocado a mesa para o almoço. Felipe desce as escadas, senta-se e coloca suco de laranja em seu copo.
_Ontem sua namoradinha saiu e não se despediu de ninguém. Gesto muito pouco educado dela, não acha? _Pergunta Edith tomando um gole de seu suco.
Felipe olha para a mãe e tem vontade de explodir. Só que ele olha para Jussara, que arregala os olhos. Tentava dizer para ele manter a calma. Aquilo poderia prejudicar Lucia e a mãe.
_Anda se preocupando com muito pouco, não é mamãe? _Pergunta Felipe dissimulando sua raiva.
Edith o encara.
_É demais pedir um pouco de educação para alguém que vem a minha casa, come da minha comida e não agradece? Nem se quer se despede?
_Tantas pessoas fazem isso. Lucia é tão meiga que saiu para não incomodar. Conheço minha namorada.
_Não gostei dessa garota.
Felipe coloca feijão em seu prato, sobre o arroz.
_Você gosta de alguém, mamãe?
_Que pergunta!
_Mamãe, você detesta todo mundo que se aproxima de mim e de Helena. Ninguém é bom o suficiente para nós. Na certa você queria escolher a minha noiva e o noivo de Helena.
_Isso seria o melhor.
_Gostaria de nos ver casados a pessoas que não amamos, só por conveniência?
_Por que não.
_Estamos no século XX, mamãe. Isso já acabou há muito tempo.
_Fazer o que. Deixa-me ir. Sua irmã saiu cedo. Quis ir de carro com aquele morto de fome, para o Rio.
_Não fale assim de Guilherme. Vai Ter que engoli-lo. Vai ser o marido de sua filha.
_Bem, fique por aí que eu tenho que voltar para a empresa. Tenho uma reunião importante.
Edith se levanta e beija carinhosamente seu filho na cabeça. Assim que ela sai, seus olhos se enchem de lágrimas. Jussara percebe que sua patroa tinha saído e vai ver Felipe.
_Ficou louco, quer que ela descubra tudo?
_Não agüentei Jussara. Tive vontade de dizer umas boas verdades para mamãe.
_Dona Helena e seu Guilherme já saíram. Vão levar Lucia e Sara para o Rio. Fique tranqüilo, daqui a pouco vocês estarão juntos de novo.
Felipe se levanta e sorri para Jussara.
_Você ainda me ama?
Ela sorri para Felipe e seus olhos se enchem de lágrimas.
_Ainda, mas não se preocupe, vai passar. O importante é você ser feliz. Tenho certeza que Lucia o fará feliz. É uma menina doce. Tive oportunidade de conversar com ela.
_Não sei como vou agradecer pelo que fez a ela.
_A melhor forma de me agradecer é sendo feliz ao lado dela. Você sabe que jamais poderia ficar com você, meu amor é proibido.
_Eu sei... mas eu te amei, mas acabou...
_Não se desculpe. Apenas seja feliz.
Ele sorri e os dois se abraçam forte.

...

Helena e Guilherme levam para o Rio de Janeiro, Lucia e Sara. Chegando na cidade, Guilherme as emprega na GS Wind. As duas ficam morando no apartamento dele, até conseguirem um lugar para se instalar. Tudo para que Lucia não se afaste de Felipe.

...

Dois meses depois...
Guilherme estava se arrumando para o casamento. Estava no quarto de Helena. Olhava para sua roupa sobre a cama. Tinha chegado o grande dia. Tinha acabado de sair do banho. Helena tinha ido ao cabeleireiro. Estava se preparando também para o grande momento da vida de ambos.
Tinha acabado de sair do banho, quando a porta se abre. Veste a cueca.
_Não sabe bater não? _Grita Guilherme, que estava pendurando a toalha no aro de metal ao lado do box. Ele sai do banheiro e dá de cara com Edith.
_Não preciso bater a porta de lugar nenhum dentro dessa casa. Ela é minha e entro onde eu quiser.
_Eu percebi que democracia não é a sua praia.
_Sempre engraçadinho.
_ Você gostou, que bom. O que você veio fazer aqui Edith?
_Vim ver você. Tentar mais uma vez fazer com que você desista desse casamento.
_Se veio aqui para isso perdeu seu tempo. Daqui há uma hora eu e sua filha vamos estar casados.
_Por que não a esquece e fica comigo, Guilherme? Eu o amo, como nunca amei outro homem em minha vida.
_Você não ama ninguém. A prova é que está aqui, tentando fazer com que o homem que sua filha ama, desista desse casamento e fique com você.
Com calma, Guilherme coloca a calça.
_Vocês não vão ser felizes.
_Nossa, agradeço os votos de infelicidade.
Edith se aproxima, e Guilherme olha para ela sério.
_Pode parar. Deixe para abraçar o noivo na Igreja. Aí, se você quiser, tire casquinha.
_Você consegue ser extremamente desagradável.
_Não tenho nenhuma intensão de agradar você em nada.
Ele veste a camisa. Olha-se no espelho e analisa os mínimos detalhes. Sob o olhar atento de Edith.
_Você é o homem mais lindo que eu já vi.
_Você já disse isso um milhão de vezes. O que espera que eu diga?
_O que eu espero que você diga, tenho certeza que jamais vou ouvir. Acho que perdi você no dia em que armei aquela situação na Fazenda Decresson, há alguns anos atrás.
_Isso mesmo. Naquela época eu já havia te rejeitado, agora então...
_Pode Ter certeza de uma coisa, Guilherme Souza. Quando começar a trabalhar na minha empresa, farei de tudo para destruí-lo.
_Como fez de tudo para acabar com esse casamento? Você conseguiu?
Edith o olha com ódio. Ela se aproxima da porta e a fecha com força. Guilherme via que ela estava pagando todos os seus pecados. Tinha certeza que um dia ela pagaria por tudo que ela lhe fez. Esse dia chegou.

...

Na Igreja de Montes Claros...
Felipe estava muito bem vestido. Estava de braços dados com a irmã, que estava num belo vestido de noiva. Era impossível esconder sua felicidade. Ao chegar no altar, Felipe cumprimenta Guilherme e os dois se olham, apaixonados. O irmão de Helena vai para o lado da mãe. Edith olha para eles e vê que todas as suas tentativas para impedir aquilo foram em vão. O Padre abençoa os dois e começa a missa. É feita a troca de alianças e o juramento de ambos. Então, no final, o Padre os declara marido e mulher. Guilherme levanta o véu do rosto de sua noiva e a beija com muito amor.
Edith engole aquilo a seco. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ao mesmo tempo que via a felicidade de sua filha mais velha, sofria por perder aquilo que mais desejou depois da morte de Oliveira, capataz que provocou a crise e o término de seu casamento com Kleber Decresson.

...

Rio de Janeiro...
Helena olha para o relógio e vê que já eram duas horas da tarde. Guilherme estava se arrumando.
_Amor, são duas horas, eles vão chegar daqui a uma hora e meia.
_Eu sei.
Ele sai do quarto e pega as suas chaves. Aproxima-se da esposa e sorri.
_Saudades de meus pais. Ainda bem que chegam da Grécia hoje.
_Eles ficaram sentidos por não terem vindo ao casamento. Sua mãe me deu várias broncas pelo telefone.
_Foi você que quis contar para eles depois.
_Eu sei, Gui. Não queria atrapalhar a viagem deles.
_É verdade, mas aí, agüenta a bronca deles.
Guilherme se aproxima de sua esposa e beija carinhosamente sua testa.
_Bom, vou indo.
_Está bem. Olha, avise a dona Clotilde de que não admito que eles fiquem em Hotel. O quarto deles está pronto.
_Eu aviso sim.
Ele sorri para a esposa. Abre a porta e sai.

...

Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro...
Guilherme estaciona o carro. Vai para o local onde os passageiros desembarcam. Ao chegar repara que havia um movimento estranho no saguão. Muitas pessoas nervosas. Até que ele se aproxima de um senhor, encostado num dos balcões da Varig.
_O que houve? Eles não estão recebendo os passageiros?
_Não.
_Estou notando uma movimentação estranha por aqui.
_Tem algum parente no avião 407 da Varig, vindo da Europa?
_Sim, tenho, meus pais, por que?
_O avião entrou em contato com a Torre a meia hora atrás. Parece que eles perderam contato com o avião.
_Como assim?
_Estou uma pilha, meu pai e meus dois filhos estavam no vôo.
_Como assim, estavam?
_Olhe mostrador do vôo.
O senhor aponta para Guilherme e ele lê. Ele se assusta.
“Atrasado”.
_Já era para ele ter descido a pelo menos uma hora.
_Como assim?
_O avião saiu mais cedo de Paris. As pessoas que chegariam as três e meia já deviam estar aqui. O avião adiantou a viagem por falta de passageiros.
Guilherme sente um frio na espinha. Realmente se aquilo havia acontecido, era para eles já estarem no aeroporto.

...

Uma Hora depois...
Todos estavam apreensivos. A demora por notícias era grande. Até que uma aeromoça da companhia passa por eles. Guilherme se levanta e agarra o braço da moça.
_O vôo 407 da Varig não deveria já estar aqui? Ele não estava adiantado? Por que a demora? Por que a falta de informação? _Pergunta Guilherme tenso.
_Ainda não temos certeza de nada senhor.
_Certeza de que? _Berra uma outra pessoa do outro lado das cadeiras onde as pessoas estavam esperando seus familiares.
A aeromoça consegue se desvencilhar e entra no guichê, sem falar muita coisa.

...

Duas horas depois...
Um homem sai de dentro do guichê e se aproxima dos passageiros.
_Peço um pouco de atenção, por favor.
As pessoas se aglomeram para ouvir o que aquele senhor tinha a falar.
_Finalmente, alguma notícia _diz o senhor que estava próximo de Guilherme.
_Bem, infelizmente fui encarregado de dar essa notícias para vocês. Elas não são boas. _diz o moço vestido com o uniforme da Varig.
_Por favor, seja claro _Berra Guilherme assustado.
_O Vôo 407 infelizmente atravessou uma forte tempestade no meio do Oceano Atlântico. _diz o senhor, sério.
_O senhor está querendo nos dizer... _diz Guilherme abalado. Seus olhos se enchem de lágrimas. Ele começa a sentir um frio na espinha. As notícias não eram boas.
_O avião caiu no mar. Não existe mais possibilidade de encontrarem sobreviventes. As equipes de resgate foram acionadas. Pelo que sabemos, através de relato de pescadores próximos as Ilhas Açoures, houve uma forte explosão._diz o senhor.
Aquilo parecia um pesadelo. Guilherme se escora na pilastra perto de onde ele estava para não cair. A sensação é de que o chão sobre seus pés desapareceu. As pessoas começa a berrar. Enlouquecem. Pais perdem filhos e netos, tios perdem sobrinhos. Mães e pais perdem seus filhos.
Parecendo que carregava um peso nas costas, Guilherme se aproxima do telefone público, insere uma ficha e liga para casa. Helena atende.
_Alô.
_Helena, sou eu.
Helena se assusta. A voz de seu marido era de choro.
_Guilherme, o que houve? Que voz é essa?
_O avião de meus pais caiu, Helena.
_Não, meu amor, não... Pelo amor de Deus, que brincadeira é essa?
_Não há sobreviventes, Helena...
_Eu estou indo para aí.
Helena desliga. Uma tragédia havia se abatido na vida de Guilherme. De uma vez só, tinha perdido seu pai e sua mãe.

...

Meia hora depois...

Helena chega no Aeroporto e vê seu marido. As lágrimas não paravam de cair, ele não conseguia controlar. Ela chega no meio do caos. Desespero e sofrimento por todos os lados. Guilherme a abraça e desaba em seus braços. Ela tenta se segurar, mas ao ver o sofrimento das pessoas, dos familiares, ela chora junto ao marido.

...

Duas semanas depois...

O corpos de Clotilde e Mathias são finalmente identificados. Guilherme então ganha o direito de enterrar seus pais. Velados na capela de Pingos de Ouro, são enterrados no Cemitério onde o pai de Helena e Felipe fora enterrado. A Varig é processada e Guilherme ganha a indenização pela morte de seus pais.

....

Um ano depois... 1981...
No Hospital de Montes Claros...
Guilherme tinha se afastado da empresa para se dedicar exclusivamente de sua esposa. A notícia da gravidez de Helena tinha chegado para amenizar a morte de seus pais. Ele estava muito feliz.
Era de manhã, quando Helena começou a entrar em trabalho de parto. Tinha ido para a Hospital e já estava na mesa de cirurgia.
Guilherme estava andando de um lado para o outro. Estava nervoso. Felipe estava com ele. Edith também estava lá.
_Andando de um lado para o outro desse jeito, vai acabar furando o chão do Hospital _diz Edith para o genro.
_Mamãe, respeite o nervosismo do papai do ano. _diz Felipe. Ele se aproxima de seu cunhado e coloca a mão no seu ombro.
_Que demora. Quero ver me filho logo de uma vez. Um ano depois daquele sofrimento, a felicidade tinha que sorrir para mim. _diz Guilherme parecendo uma criança. A felicidade brilhava em seus olhos.
_Sabemos disso, Gui, mas tenha calma. Ela entrou a dez minutos, calma _diz Felipe.
_Parece uma eternidade _diz Guilherme assustado.
_É assim mesmo, acostume-se – Diz Edith olhando para seu genro.
Edith se levanta e se aproxima da janela. Era estranho ser avó pela primeira vez.
_Estou ficando velha. Vou ser avó, pode? _diz Edith rindo sozinha.
_Isso acontece, mamãe _diz Felipe.

...

Duas horas depois...
Guilherme estava muito tenso. Aquela demora não era normal. Felipe percebe a preocupação de seu cunhado. Levanta-se do lugar onde estava sentado e se aproxima dele.
_Fique calmo. Tudo deve Ter uma explicação.
_Essa demora não é normal.
Naquele exato momento, Celso, o médico da família abre a porta da sala de espera e se aproxima de Guilherme. Felipe se levanta e para ao lado do cunhado. Preocupada, Edith também se aproxima. O semblante de Celso não estava muito bom e aquilo preocupa Guilherme.
_Aconteceu alguma coisa com minha esposa? Essa demora não é normal _pergunta Guilherme assustado.
_As notícias não são boas _diz Celso sério.
_Como está minha mulher? _Pergunta Guilherme assustado.
_Sua mulher perdeu muito sangue. O parto se complicou e o bebê entrou em sofrimento. Infelizmente sua esposa não poderá mais ter filhos. Tivemos que retirar seu útero_diz Celso abalado.
Os olhos de Guilherme se enchem de lágrimas.
_Ela está bem? _Pergunta Felipe assustado.
_Agora está _diz Celso.
_Bem, pelo menos meu filho está a salvo _diz Guilherme sorrindo, nervosamente.
_Guilherme, a complicação colocou a criança em sofrimento e ela não resistiu. Infelizmente seu filho nasceu morto _diz Celso arrasado. .
Guilherme tem que se apoiar em Felipe. Era como se o chão tivesse sumido a sua frente. Felipe não segura as lágrimas. O sofrimento era terrível. Novamente a sensação de perder alguém... Novamente a sensação de estar sozinho.
Edith segura Celso pela gola.
_Você é nosso médico da família. Não fez nada para salvar meu neto, desgraçado. Vou acabar com essa espelunca _Berra Edith abalada.
_Acalme-se mamãe, não é hora para perder a cabeça. _diz Felipe.
_Isso não pode ser verdade. Sempre sonhei em ser pai. Meu Deus, é um castigo, é uma aprovação. Só pode ser. Primeiro meus pais e agora o meu filho. Não, é muito para a minha cabeça. _diz Guilherme se sentando. Tinha a sensação de perder as forças.
_Tentei de tudo, Helena, estava muito bem. De repente percebemos uma hemorragia e vimos que a criança estava muito mal. Fiz tudo que eu podia, acreditem. _diz Celso.
_Sabemos disso, Celso. Confiamos em você. Desculpe minha mãe, ela está muito abalada _diz Felipe assustado.
_Não, eu não aceito. Eu quero meu filho, por favor Celso, por favor, diga que tudo isso é mentira. Há um ano minha vida virou de cabeça para baixo. Perdi meus pais e agora meu filho, não, não não..._Berra Guilherme desesperado.
_Por favor, Guilherme, tenha calma. Eu sei que é difícil, mas ainda tem a pior parte. Helena tem que saber de tudo. Vai Ter que ser forte. _diz Felipe chorando.
Celso abre a porta da sala de espera, quando Guilherme se levanta e o chama.
_Celso _Berra Guilherme.
Ele se vira e olha para o paciente.
_Sim _diz Celso.
_Onde está meu filho? _Pergunta Guilherme. As lágrimas caiam de seu rosto, sem que ele fizesse questão de controla-las.
_Está na sala de Cirurgia. Por que pergunta? _Pergunta Celso sério.
_Posso me despedir de meu filho? _Pergunta Guilherme abalado.
Felipe e Edith se levantam a se aproximam de Guilherme.
_Ficou louco? Gosta de sofrer? É sadomasoquista? _Pergunta Edith sem entender nada.
_Não faça isso, vai sofrer muito mais _diz Felipe abalado.
_Eu preciso fazer isso _diz Guilherme.
_Sim, pode ver, mas tem certeza de que é isso que você quer? _Pergunta Celso.
_Tenho sim. _Diz Guilherme.
Celso o leva para a sala de cirurgia. Ao fazê-lo entrar, ele vê um pequeno corpo inerte, debaixo de um lençol verde. O médico se aproxima com ele e levanta o lençol. Guilherme se desespera.
_Por favor, deixe-me a sós com meu filho, eu preciso muito me despedir dele.
_Tudo bem.
Celso se retira. Guilherme fica a sós com seu filho. Com carinho o pega no colo e sofre ao vê-lo sem vida.
_Por que, meu Deus. Ele estava bem e agora está morto. Filho, mil desculpas. Não pude fazer nada, nem eu e nem sua mãe. Como eu posso acabar com essa dor que me invade o peito. Não, por favor, não me deixe... Pai, mãe, acolham meu filho. Por favor, me ajudem, eu não agüento mais sofrer...
Guilherme encosta na parede e escorrega até o chão, abraçado ao seu filho. Não podia descrever a dor que estava sentindo.

...

No quarto de Helena...
Guilherme estava sentado ao lado de sua esposa. Ela ainda não tinha acordado. Felipe se aproxima dele.
_Tem certeza que é melhor ficar sozinho com ela?
_Sim, Felipe. Quem tem que contar sou eu.
_Tudo bem, estaremos aqui fora.
Edith se aproxima dele e coloca a mão em seu ombro. Sabia que nesse hora, todos os ressentimentos deveriam ser postos de lado.
_Estaremos aqui, se precisar de ajuda.
Ele olha para Edith e sorri.
_Obrigado.
Todos saem. Ele fica sentado ao lado de Helena. Segura sua mão e a beija com carinho. Helena abre os olhos e vê seu marido. Com carinho, ela aperta sua mão. Ele olha para ela e sorri.
_Olá, acordou?
_Sim. Acordei.
Guilherme engole a vontade de chorar. Tinha que ser forte para poder comunicar a sua esposa a morte de seu filho.
_Eu ainda não vi nosso filho. Ele é parecido com você? Ele ou ela, não sei... Não consegui ver nada na mesa de cirurgia, simplesmente apaguei.
Ele fica abalado ao ouvir aquilo.
_Helena, você vai ter que ser forte.
Ela estranha aquele comentário do marido.
_Como assim?
_Bem, você teve complicações no parto. O médico teve que tirar seu útero. Não vai poder mais Ter filhos.
Aquela notícia pega Helena de surpresa. Seus olhos se enchem de lágrima.
_Tudo bem, mas pelo menos temos o nosso filho.
_Meu amor, tem que ser forte.
_Como assim? Chame a enfermeira que eu quero ver meu filho. Ou filha, não sei.
_Não tem outra maneira de te dizer, Helena. O bebê nasceu morto.
Helena olha para Guilherme desesperada.
_Não brinque comigo.
_Não estou brincando meu amor. Eu estive com ele nos meus braços, sem vida.
Helena arranca o soro da mão e se levanta. De seus olhos caem lágrimas. Ela começa a berrar. Fica fora de si quando descobre tudo.
_Não, isso não, eu quero meu filho. _Berra Helena desesperada.
Felipe e Edith entram no quarto.
_Calma, não fique assim _diz Edith assustada ao ver sua filha fora de si.
_Helena, meu amor, acalma-se _diz Felipe para a irmã.
Duas enfermeiras entram no quarto. Uma a faz deitar, mas ela estava desesperada. Tentava sair da cama a qualquer custo.
_Eu quero meu filho, eu quero meu filho _Berra Helena.
Guilherme estava abalado. Felipe estava ao seu lado. Edith sai do quarto para não ver o que estava acontecendo. A enfermeira prepara um sedativo injetável e aplica. Ela vai fechando os olhos e logo é deitada na cama com calma pelas enfermeiras.

...

No Cemitério da Família Decresson...

Guilherme olha para o pequeno caixão. Com cuidado, o coloca na cova. Ele joga uma flor e pede para que o rapaz o cubra com terra. De seus olhos, as lágrimas caem e ele não tem nenhuma vontade de conte-las. Ultimamente as lágrimas tem sido constantes em sua vida. Felipe estava ao seu lado. Tinha que estar ao lado de seu cunhado, sempre.
Helena tinha recebido alta, mas estava muito abalada e tinha tomado um calmante. Não queria ver seu pequeno filho ser enterrado.
Lentamente o rapaz que tinha acabado de fechar o túmulo se retira. Ficam somente Felipe e Guilherme. Ele coloca a mão no ombro de seu cunhado.
_Guilherme, estou muito preocupado com você. Não come, não bebe. Por favor, precisa se cuidar.
_Felipe, eu quero morrer.
_Não fale isso, por favor. _Diz o irmão de Helena, com a voz embargada.
_Não pude salvar meu filho, não pude fazer nada. Foi um dia tão esperado. Como eu posso pensar em comer. Ele deve ter sentido frio... Deve ter sentido fome. Por favor, meu Deus, me mate, não quero mais viver. Mais um baque em minha vida. Há um ano enterrei meus pais. Aqui mesmo. Tudo bem, é o natural eles irem primeiro. Não os filhos irem antes. Ele nem cresceu, ele não vai Ter a sua idade, ele não vai Ter a minha idade.
Sem forças ele cai de joelhos. Felipe estava desnorteado. Sua irmã e seu cunhado tinham perdido a vontade de viver. Naquele momento, Felipe sente a mão de alguém em seu ombro. Ao virar para trás, vê Justos.
Os dois se abraçam forte.
_Justos, ele perdeu a vontade de viver _diz Felipe chorando.
_Eu sei como é. Ele vai sobreviver. Eu perdi meus dois filhos _diz Justos emocionado.
_Esses devem ser os seus netos _diz Felipe.
_Sim, Pedro e Rodrigo. _ Diz Justos
_ Mil desculpas, mas vamos nos conhecer no meio de uma tragédia _diz Felipe.
Pedro e Rodrigo abraçam Felipe emocionados.
_Felipe, eles estão muito emocionados, nosso passado veio toda a tona. Leve-os para a Casa Grande. Preciso ficar a sós com Guilherme _diz Justos.
Os três se afastam. Justos senta-se ao lado de Guilherme. Ao vê-lo, ele abraça o sócio e desaba. Um choro dolorido, profundo.
_Chore, meu filho, chore tudo que você puder. Coloque essa dor para fora.
_Não sei se vou agüentar. Dói tudo por dentro.
_Eu sei disso, meu amigo.
_Justos, eu estive com ele nos meus braços. Não pude fazer nada.
_Por algum motivo Deus quis que isso acontecesse.
_Devo ter feito muito mal aos outros em outras vidas.
_Não pense assim. Assim que soube, quase tive um troço. Eu acompanhei a felicidade de vocês, e agora essa rasteira. Depois a morte de seus pais naquele acidente estupido. Minha nossa senhora, o que falta mais acontecer?
_Eu morrer, amigo, não quero comer, não quero beber, não quero fazer mais nada, quero estar com eles.
Os dois ficam sozinhos, abraçados. Guilherme consegue desabafar. Colocar toda a dor para fora. Precisava fazer aquilo, para começar a vida novamente. Juntar os pedaços e recomeçar.

...

Na Casa Grande...
Guilherme entra na casa com Justos. Pedro e Rodrigo o abraçam. Não conseguem falar nada. Só choram. Compartilhavam a dor de Guilherme.

...

No dia seguinte...
Justos sai com Guilherme. Estava de partida para sua Fazenda em Goiás.
_Você vai ficar bem?
_Vou. Não sei o que seria de mim sem você.

_Por favor, meu filho, o que precisar, me ligue. Eu se fosse você convencia a sua esposa a passar uns meses na nossa Fazenda. Ela precisa sair, espairecer.
_Vou ver se consigo fazer uma viagem com ela.
Pedro se aproxima dele.
_Fica com Deus, estamos com você, sempre. _diz Pedro.
_Ele sabe disso. _diz Rodrigo sorrindo para Guilherme.
_Não sei o que faria sem vocês ao meu lado _diz Guilherme.
Eles se abraçam. Os três entram no carro e partem. Em seguida, Guilherme entra na casa.

...

Na Cozinha...
Guilherme abre a porta da geladeira para pegar um copo de água. Julio e Laura entram na cozinha. Olham para ele. Julio não agüenta e se aproxima e abraça o patrão.
_Meu Deus, seu Guilherme. Que tragédia _diz Julio muito abalado.
_Calma, amigo. A vida continua _diz Guilherme.
_E a minha Helena? _Pergunta Julio, de seus olhos caem lágrimas.
_Está sofrendo muito, mas vai sobreviver a tudo isso _diz Guilherme.
_Ela chegou e não queria ver ninguém. Foi direto para cama. Quase morri, seu Guilherme, minha menina não merecia _diz Laura abalada. Com um lenço enxugava as lágrimas.
Guilherme abre os braços e os três se abraçam.
_Ela vai precisar de nós _diz Guilherme.
Naquele momento, Edith entra na cozinha. Olha para os três abraçados. Julio e Laura se assustam.
_Mil desculpas, dona Edith, estamos sofrendo muito. _diz Laura abaixando a cabeça.
_Ela vai sair daqui e nos deixar em paz. Não vai fazer nenhum comentário desagradável em relação a vocês, por que se isso acontecer, eu não respondo por mim. _diz Guilherme. Olha para Edith com raiva, com ódio.
Edith olha para Guilherme e não fala uma palavra. Sabia que ele estava sofrendo, mas o que vê em seus olhos é muito mais do que isso. Assim como ela entrou, ela saiu, sem dar uma palavra.
_Vocês tem o direito de sofrer. Helena é como se fosse filha de vocês. _diz Guilherme.
Eles se abraçam forte.

...

Dois dias depois...
Helena estava em casa. Estava próxima a janela de seu quarto. Olhava o mundo lá fora. Era um dia de Sol. De seus olhos caem lágrimas. Impossível esquecer o que aconteceu. Para ela, tudo estava sem cor. Tudo estava sem vida. Sua vontade era pegar um revólver e dar um tiro na cabeça. A porta se abre. Era Felipe.
_Helena, você precisa reagir.
_Não quero reagir, eu quero morrer.
Ele se aproxima da irmã.
_Tive uma idéia. Conversei muito com Guilherme.
_Eu acho que meu casamento vai acabar. Não posso mais ter filhos e Guilherme ama crianças.
_Não fale assim, ele te ama.
_Ele diz que me ama. Estou me acostumando a viver sem ele.
_Vamos, se arrume.
_Não quero sair.
_Vamos.
Helena tenta recuperar as forças e reage ao convite do irmão. Pega sua bolsa e sai. Eles pegam um carro. Helena nem olhava para nada, estava perdida em seus pensamentos. Felipe olhava para ela. Respeitava seu silêncio.

...

Duas horas depois...
Guilherme estava parado esperando por eles. Ela vê o marido e se assusta.
_Guilherme, o que está fazendo aqui? Não está trabalhando? _Pergunta Helena assustada.
_Tudo foi idéia de seu irmão, por que ele não estava agüentando mais ver você sem vida dentro de nosso quarto. Eu também, não estava agüentando mais ver você querendo morrer como nosso filho, então resolvemos, eu e ele, fazer uma surpresa para você. _diz Guilherme emocionado.
_Trouxemos isso aqui para que você não olhar _diz Felipe. Ele coloca uma facha nos olhos de Helena.
_Não quero saber de brincadeiras, não quero sorrir. Quero morrer _diz Helena. Seus olhos se enchem de lágrimas.
_Fique quieta e faça uma força, vai valer apena _diz Felipe.
Os três sobem as escadas e entram num grande Hospital. Atravessam um grande corredor e entram numa sala de espera.

...

Meia hora depois...
Uma freira chega e pede para que Felipe abra a porta. Guilherme pede para que ninguém faça barulho. Ela para diante de Helena. Com calma, Guilherme retira a venda de seus olhos e Helena vê uma freira com uma criança no colo.
Helena olha para o marido e para o irmão sem entender nada.
_Meu sofrimento foi muito grande, mas o seu é bem maior, Afinal, você é mãe. Então, seu irmão pesquisou, procurou e depois veio falar comigo. Eu estava deitado ao seu lado, enquanto você ainda dormia. Então ele me deu uma idéia que poderia mudar nossos destinos. Vim aqui com seu irmão e perguntamos se havia alguma criança para adotar. Foi quando uma freira muito bondosa nos mostrou essa linda menina. Sua mãe faleceu no parto um mês atrás e me parece que o pai morreu há um ano e ela não tem família. Felipe olhou para ela e se apaixonou. Então, resolvi dar entrada nos papéis para adoção. Só falta escolher o nome _diz Guilherme olhando para Helena, emocionado.
A freira sorri para Helena e lhe entrega a menina. Ela estava dormindo. Dos olhos de Helena caem lágrimas. Ela estava muito emocionada.
_Ela não é linda? _Pergunta a bondosa freira.
_Muito. Meu filhinho morreu no parto e eu não posso mais Ter filhos. Eu a amei assim que a vi. Não estou conseguindo segurar a emoção.
_Não segure. Ponha toda essa dor para fora e agradeça a Deus o grande presente que ele está lhe dando _diz a freia, emocionada também.
Helena se levanta com calma e entrega sua filha a Felipe, que não aguenta de emoção e chora. Ela beija seu irmão com muito amor e carinho.
_Eu amo você, por que você é um ser humano especial. Segure só um pouquinho minha filha, eu preciso abraçar meu marido. _diz Helena.
_Claro _diz Felipe com a voz embargada.
Helena abraça seu marido e o beija apaixonadamente.
Assim que se afastam, ela olha para o marido e enxuga suas lágrimas.
_Você é o amor de minha vida e jamais esquecerei isso. Amei Lisa assim que a vi.
Guilherme sorri.
_Como você a chamou?
_De Lisa. Eu queria muito que ela se chamasse Lisa.
_Lindo nome.
_Posso levá-la para casa?
_Claro. Ela é a nossa filha. Além do mais, não tem mais ninguém nesse mundo.
_Agora tem a nós.
Helena e Guilherme sorriem ao sair com a criança nos braços. Felipe sente-se muito bem. Sua idéia tinha mudado para sempre a vida de sua irmã.

...

Edith estava em casa. Tinha acabado de almoçar. Tinha dado toda a assistência a sua filha e a tragédia que ela e seu marido tinham vivido. Enterrar um recém nascido fugia a ordem natural das coisas. Estava vendo um revista, quando olha para o porta retrato de Helena e Guilherme sobre o piano da sala. Ela larga a revista sobre o sofá e pega a foto e com amor passa a mão sobre a imagem de Guilherme.
“Não posso esconder que vê-lo sofrer foi terrível. Perder um filho machuca muito. Deve ser uma dor que não se supera nunca. Fiquei abalada ao ver minha filha daquele jeito, mas há males que vem para bem. A morte dessa criança vai acabar definitivamente com o casamento de Helena com você, e aí, você estará livre para mim. Vou me aproximar de você e aproveitarei esse momento que você está carente e vou tê-lo nos meus braços, para sempre. Infelizmente minha filha vai sofrer, ao nos ver juntos. Antes ela infeliz do que eu. Ela vai encontrar alguém que a ame muito, tenho certeza”.
Naquele momento, a porta se abre. Helena entra segurando algo com Felipe e Guilherme. Edith fica surpresa ao vê-la com os olhos inchados.
_Helena, onde esteve? _Pergunta Edith abalada.
_Veja mamãe. Venha conhecer sua netinha _diz Helena emocionada.
Edith estranha. Ela se aproxima e vê um bebê de colo nos braços de Helena.
_Quem é essa menina? _Pergunta Edith assustada.
_Tive a idéia e falei com Guilherme. Helena não comia, não saia de casa. Com certeza ia morrer de tristeza pela morte de seu filho. Então fui investigar num Hospital aqui por perto, de Montes Claros mesmo e descobri essa menina linda. Sem família, sem pais. Procurei Guilherme e lhe contei minha idéia. Ele adorou e aqui estamos com ela. Com a minha sobrinha querida, a Lisa _diz Felipe feliz, próximo a menina.
Edith não estava acreditando no que estava vendo. Aquela menina a sua frente fazendo ressurgir o casamento de Helena e Guilherme.
_Não é linda, mamãe? _Pergunta Helena com os olhos cheios de lágrimas.
A matriarca da família se enfurece. Começa a andar de um lado para o outro, inquieta. Guilherme olha para Felipe sem entender nada.
_Não gostou de sua netinha, mamãe? _Pergunta Felipe olhando para a mãe, querendo entender aquela atitude.
Ela se aproxima de Helena. Olha para a criança, séria.
_Essa menina não tem família. Ela não tem o nosso sangue. Quem me garante que índole ela vai ter? Vocês parecem loucos. _diz Edith indignada.
Helena a encara assustada com aquela reação.
_Ela vai ter a índole que eu lhe der, por que eu vou criá-la _diz Helena indignada com o que ela tinha acabado de falar.
_Um dia ela pode se voltar contra vocês. Cansamos de ver casos de filhos adotivos que se voltam contra os pais. As páginas policiais estão cheios desses crimes _diz Edith abalada.
_Que crueldade, mamãe. Você falar uma coisa dessas. Helena está radiante de felicidade _diz Felipe encarando a mãe.
_Você tinha que se contentar. Saber que os designos de Deus são para ser respeitados. Ir contra o que ele manda é uma desfeita _diz Edith olhando para a filha.
_Você está querendo me dizer que eu tinha que aceitar perder um filho e sofrer por ele? O que a senhora tem nas veias? Cimento? No lugar de seu coração existe uma pedra? Com certeza ia querer me ver sofrendo pela morte de meu filho, mas isso não vai acontecer. A senhora aceite ou não, vou criar essa criança como minha e ninguém vai me impedir, nem mesmo você. _diz Helena indignada.
Abraçada a criança, Helena sobe os degraus e vai para o quarto. Felipe olha para sua mãe e balança a cabeça.
_Definitivamente eu acho que a senhora não faz mesmo questão nenhuma de se entender com Helena. Ela tem razão, eu não sei o que a senhora tem nas veias. _diz Felipe. Ele sobe as escadas. Estava indignado.
Por último, Guilherme a encara.
_E você? O que está olhando? _Pergunta Edith encarando- o..
_Sua crueldade, sua insensibilidade. A criança nem cresceu ainda e você só pensa em dinheiro, em nome, em sangue, em dinheiro, em maldade. Você precisa se tratar, Edith Decresson.
_Você está me chamando de maluca? Ora seu... _E é interrompida por ele.
_Veja lá o que vai falar. Nem mesmo vendo o sofrimento da filha você desce desse seu pedestal. Você se acha superior as outras pessoas, mas é de carne e osso, como todos nós. Não adianta Ter todo o dinheiro do mundo, Edith, se você não tem o que quer, não é verdade?
Guilherme sabia exatamente onde queria chegar.
_Todo mundo tem seu preço. Você deve Ter o seu.
_Não estou a venda e nunca estive. Você é uma mulher mesquinha e traiçoeira. Tudo em você me cheira a artimanha, a mentira. Você arma, você chantageia, você machuca. Que carma que a minha mulher tem em Ter que aturar uma mãe como você.
_Veja lá como você fala comigo, rapazinho. Sou o dono da empresa onde trabalha e posso realmente destruir você.
_Não pode não. Tenho competência e sabe disso.
_Não sabe o que eu sou capaz de fazer com quem atravessa o meu caminho.
_Sei sim. Eu a conheço muito bem. Ou pensa que eu me esqueci, na Fazenda Decresson?
_Fale baixo infeliz.
_Tem medo que Helena descubra tudo, não é?
_Vocês vão ver como eu estou certa em relação a essa bastarda que vocês trouxeram aqui para dentro dessa casa.
Ele não aguenta ouvir aquilo e a pega pelos braços. Ele a olha com muito ódio.
_Faça alguma coisa contra ela, e eu acabo com a sua raça _berra Guilherme.
_Você está me machucando _Berra Edith
_E vou te machucar mais ainda se você não deixar minha família em paz.
Guilherme a joga sobre a poltrona e sai da sala. Sobe as escadas. Edith fica estendida sobre o sofá. De seus olhos caem lágrimas.
_Todos vocês vão se arrepender. Vou provar que estou certa. Essa bastardinha vai Ter o que merece.
Edith pega um vaso de flores próximo a onde estava e vara em direção a parede. O vaso se espatifa, quebrando-se em mil pedaços.
Naquele momento, Marcio, o filho mais novo de Julio aparece na sala.
_Dona Edith, a senhora está bem? _Pergunta Marcio, que estava ajudando o pai a arrumar os livros da biblioteca.
_Saia daqui. Quero ficar sozinha. _diz Edith grosseiramente.
O rapaz olha para a patroa com raiva. Em seguida, sai da sala. Ao entrar na Biblioteca vê o pai.
_O que houve, filho?
_Dona Edith está tendo um treco lá na sala.
_Ela é assim. Um dia está bem, outro dia está mal.
_Nunca pensou em sair daqui e viver a própria vida, papai?
_Sempre fui muito ligado a essa família, não vejo motivo para isso. Filho, fique aqui. Já volto.
_Tudo bem, papai.
Ele começa a tirar poeira, quando vê uma gaveta entre aberta. Era da escrivaninha de Edith Decresson. Estranha aquilo, ela sempre trancava aquela gaveta a sete chaves. Ele se agaixa e a abre. Dentro dela estava um envelope escrito. Testamento. Com calma, ele retira os papéis de dentro e lê o conteúdo. Era um a rapaz esperto. Tinha acabado os estudos e pensava em sair de Montes Claros e estudar, ser alguém.
Seus olhos se enchem dágua quando ele lê no testamento o que Kleber Decresson tinha deixado para seu pai. Via também a carta escrita por seu pai, abrindo mão da Fazenda e do dinheiro. Ele pega o documento e sai.

...

Julio estava em casa, pegando algumas coisas, quando Marcio abre a porta e entra. Jussara estava na Casa Grande da família. Junto com Laura.
_Papai?
_Marcio, volte para a biblioteca, a dona Edith gosta de ver seus livros bem limpos.
_Pode me explicar o que é isso?
Marcio entrega os papéis para Julio. Ele o olha assustado.
_Onde arrumou isso?
_A gaveta de dona Edith estava aberta, fui fechá-la, e acabei vendo esses papéis. Curioso, peguei os papéis, abri, e li.
_Não pode fazer isso, não nos pertence.
_A Fazenda e o dinheiro eram nosso, e você abriu mão, por que? _Pergunta Marcio indignado.
Julio olha para ele e vê sua indignação.
_Ele ameaçou matar nossa família.
_Desgraçada, maldita. Essa mulher é um demônio.
_Não fale assim meu filho.
Julio se aproxima dele, mas ele se afasta.
_Não me abrace. Estou com muita raiva de você.
_Por que? O que eu poderia fazer contra essa mulher que tem o mundo aos seus pés?
_Lutar, papai, lutar. Não aguento mais ficar aqui nesta fazenda. Vou embora.
_Não pode fazer isso. Ainda é menor.
_Não pode me impedir de ir. Vou para casa de sua irmã, no Rio de Janeiro. Vou me formar, para tirar vocês das garras dessa infeliz.
_Filho, por favor.
_Ou você faz o que eu estou te pedindo, ou vou abrir o jogo com a mamãe e a Jussara. Elas sabem disso?
_Não, não sabem. Por favor, não conte, mas... não quero que vá, vamos sentir sua falta.
_Tenho que ir pai. Tenho que lutar para tirar vocês daqui.
_Eu entendo, mas... _E é interrompido por Marcio.
_Vou me embora, antes que eu vá lá dentro e enfrente Edith Decresson, de uma vez por todas.
_Não, por favor. Tudo bem, se sua estadia aqui em Pingos de Ouro se tornou insustentável, tudo bem. Vou falar com sua tia, ela vai adorar te receber.
Julio e Marcio se abraçam.
“Eu vou voltar, Edith decresson, para reaver o que é nosso. Aguarde”.
Pensa Marcio.

Armadilhas do Destino - Capítulo 8

Capítulo 8

Edith olha para Guilherme com ódio. Ele se aproxima. Ela o observa nos mínimos detalhes. Estava mais bonito, mais educado. Via-se que tinha mudado da água para o vinho.
_O que você está pretendendo? _Pergunta Edith assustada.
Ela começa a caminhar para trás, quando ele vem em sua direção.
_Saber se você não quer que eu me case com sua filha por que o meu sangue é ruím, ou se você ainda me ama.
Ela sente seu perfume. Via que ele estava mais educado. Seu coração acelera. Seus olhos azuis se encontram com os dela. Ela poderia enganar a quem quisesse, menos a ela mesmo.
_Afaste-se de mim, por favor.
_Aquele capataz ignorante, aquele rapaz que você humilhou se transformou, minha querida. Hoje sou um futuro administrador de empresas.
Ele se aproxima mais dela e a encosta na parede. Ela sente o calor do corpo dele no seu. Aquilo a faz respirar fundo. Com carinho ele a puxa para si e a olha nos olhos. Ela sente o calor de sua boca, a beleza de seus olhos. Ele aproxima sua boca da boca dela, e ela tenta beijá-lo, mas ele se afasta. Lentamente encosta seus lábios em seus ouvidos. Começa a falar, quase sussurando.
_Sua filha conhece cada detalhe desse corpo. Ela já provou cada parte.
Edith fecha os olhos e se desespera. Era terrível saber que Helena tinha conseguido o que ela sempre sonhou. Naquele momento, ela descobre um sentimento que a assusta. O ódio por sua filha.
_Desgraçado, sabe que eu o amo. Sabe que nada mudou. Sabe que eu poderia Ter te dado o que você quisesse e agora está aqui. Vai se casar com minha filha para se vingar de mim. Tenho muita vontade de matar você, Guilherme, como tenho.
_Não, me matar não. Sua boca não diz isso. Na verdade, sua boca gostaria de estar provando o meu corpo, não é verdade? Só quem tem esse privilégio é Helena. Dormimos juntos todos os dias.
Edith o empurra com força. Naquele momento seu coração estava confuso. Os sentimentos estavam misturados. Ele esbarra na cadeira, próxima a eles. Ele se equilibra para não cair.
_Vou destruí-lo, Guilherme. Eu tenho que odiar você _diz Edith desesperada.
_Como é bom ver você assim. Não sabe como fico satisfeito em ver você me desejando. Essa sua reação não deixa dúvidas. Você ainda me ama. Posso Ter o sangue ruím que for, mas você ainda me quer...
_Você é um cafageste. Vou contar tudo para minha filha, esse casamento não vai se realizar.
_Vai contar o que? Que me humilhou, que me expulsou, só por que não cedi as suas pressões para ir para cama com você? Imagina quando ela souber disso, vou acrescentar que foi na época que seu pai morreu. Ou você pensa que eu esqueci que você foi ao meu quarto, ainda de preto, para dizer que minha permanência na fazenda só aconteceria, se eu fosse para cama com você. Vamos lá, vá lá fora e conte tudo. Ela vai adorar saber.
_Tenho que arranjar um jeito de acabar com você, maldito. _diz Edith, chorando.
_Vou me casar com a sua filha e vou trabalhar na sua empresa.
_Isso nunca, enquanto eu viver.
_Helena é dona da metade de tudo isso, minha querida. Sou o melhor aluno de administração da UFRJ. Ela vai querer a melhor equipe com ela. Ainda mais, sabendo que o seu marido é um cara que tem negócios e os administra muito bem. Você deve Ter conhecido Justos, não. Temos uma estrutura muito sólida na nossa Fazenda. Minha empresa de Importação está indo muito bem.
_Isso só pode ser castigo.
_Eu não precisei mexer uma palha para colocar você nessa situação. Eu falei para você que íamos nos encontrar, Edith Decresson. Quis o destino que o amor da minha vida fosse Helena. Sua filha. Existe um ditado que é muito certo. Aqui se faz, aqui se paga.
_Eu irei destruir o casamento de vocês.
_Pode ser. O futuro só a Deus pertence. Só que aqui e agora, temos que comemorar o meu noivado. Acho melhor você se recompor. Sua maquiagem foi para o brejo.
Guilherme abre a porta do escritório e sai. Não podia esconder sua felicidade. Edith fica enloquecida. De repente, olha para a foto dela e de Kleber encima da mesa.
_ Isso é culpa sua. Você está tentando me enlouquecer. Não pode ser verdade. O homem que eu queria para mim é de Helena. Maldita. Ela vai pagar por tudo isso. Ela e esse infeliz.
Edith pega o retrato de Kleber e joga na parede com muita raiva. O quadro se destroi, junto com o vidro. Sem forças, se ajoelha e chora. Não sabia o que fazer nem como agir.

...

Helena estava conversando com Felipe, quando Guilherme aparece.
_Gui, vem aqui _diz Helena o chamando.
Ele sorri e se aproxima. Os dois se beijam. Helena olha para o irmão.
_Esse aqui é o homem de minha vida, Lipe _diz Helena de mãos dadas com Guilherme.
_Muito prazer, Guilherme. Seja bem vindo a família _diz Felipe cumprimentando- o.
_Muito obrigado. Sua irmã fala muito de você. _diz Guilherme sorrindo.
_Nem preciso dizer o quanto ela fala de você. Tenho que te agradecer _diz Felipe sendo sincero.
_Por que? _Pergunta Guilherme sem entender nada.
_Pelo sorriso que você fez aparecer. Helena está muito feliz. Eu sei disso, eu a conheço _diz Felipe, beijando a mão da irmã.
_Essa linda moça merece ser feliz, não merece? _Pergunta Guilherme.
_Tenho certeza que onde quer que esteja, nosso pai iria gostar muito de você. _diz Felipe olhando para Helena.
_Ele deve fazer muita falta, não? _Pergunta Guilherme abraçando a noiva.
Ela fica com seus olhos cheios de lágrimas.
_Faz sim _diz Helena.
_Só que eu fiquei sabendo que você vai levá-la ao altar e me entregá-la. Isso deve ser uma honra muito grande para você. Eu fiquei muito feliz quando ela me contou. _diz Guilherme.
_É verdade. Agora quem está emocionado sou eu. _diz Felipe.
Helena enxuga suas lágrimas.
_Você merece, tenho certeza disso _diz Guilherme.
_Bem, nada de choro, afinal, hoje é dia de alegria. _diz Helena.
_Com certeza _diz Felipe sorrindo.
_Vamos lá na cozinha, tem duas pessoas que eu quero que você conheça _diz Helena.
_Tudo bem _diz Guilherme.
Helena beija o irmão e se afasta com o noivo de mãos dadas.

...

Na Cozinha...
Laura estava tirando o jantar. As panelas estavam cobertas, esperando esfriar. Julio via os copos e as bebidas, quando a porta se abre. Helena e Guilherme entram.
_Gui, esse aqui é Julio, nosso mordomo. Era fiel escudeiro de meu pai. Só que ele sabe que é muito mais que um mordomo. Ele é quase um pai para mim, e eu o amo, muito. Ju, esse aqui é o Guilherme. O homem que vai me fazer feliz para o resto da vida _diz Helena emocionada.
Julio se aproxima de Helena e a abraça forte. Depois, com muito carinho e com os olhos cheios de lágrimas, sorri.
_Assim você me mata do coração, Helena. Tudo bem, Guilherme, seja bem vindo a família, se é que posso me considerar da família _diz Julio cumprimentando o belo rapaz.
_Muito obrigado. Helena sempre me disse que quando pequena ela ia dormir em sua cama, a noite. Ela se sentia muito segura com o senhor ao lado dela _diz Guilherme cumprimentando o bondoso mordomo.
_ Eu a vi nascer. Foi um dia muito feliz em minha vida. Agora olhando para você, tenho certeza de que irá fazer a minha menina feliz _diz Julio emocionado.
_Vou sim _diz Guilherme feliz.
_Bem, e está é Laura. A mulher responsável por todo esse delicioso jantar. Cozinha como ninguém e também me viu crescer. _diz Helena apresentando seu noivo a Laura.
_Muito prazer _diz Guilherme pegando sua mão e beijando- a.
Laura percebe que o rapaz era muito bonito. Um homem feito para Helena.
_Minha querida, que belo noivo que você arranjou. Ele é muito bonito. _diz Laura abraçando Helena, emocionada.
_Assim eu fico envergonhado, dona Laura _diz Guilherme sem jeito.
_Que nada. É verdade _diz Laura.
_Bem, vim aqui apresentar para vocês, mas já deve estar na hora de servir essa jantar, que deve estar delicioso _diz Helena.
_Claro _diz Julio.
Os dois saem da cozinha e vão para o Pátio. A mesa já estava toda arrumada e os convidados já estavam sentados. Edith sai de sua casa e aproxima-se deles.
Julio aproxima-se dela.
_O jantar está servido, dona Edith. Como a senhora gosta _diz Julio.
_Excelente _diz Edith.
De longe, Guilherme a observa. Estava recomposta. Tentava mostrar que não estava abalada, mas ele sabia que aquilo era pura encenação. Ele sorri. Ela percebe e tem que se controlar muito mais.
O garçom passa com uma bandeja de taças e ela pega uma. Com uma faca, bate no vidro do copo, pedindo a atenção de todos.
_Por favor, gostaria que todos ouvissem o que tenho a dizer. Primeiro, queria que todos pegassem uma taça de vinho, ou champagne ou algo para podermos brindar a uma data muito especial. Ao noivado de minha filha mais velha, Helena Decresson. _diz Edith como anfitriã.
Todos tentam providenciar uma taça. Edith percebe que já tinham feito o que ela havia pedido.
_Bem, vamos brindar, gostaria que os noivos se levantassem. _diz Edith olhando para eles.
Helena e Guilherme se entreolham. Fazem o que ela pede.
_Aqui estamos nós, de pé _diz Helena sorrindo.
_Bem. Antes eu queria agradecer a presença do Prefeito Carlos Alberto Montenegro e sua esposa, Agnes. Nada como a mais importante autoridade de Montes Claros. _diz Edith oferecendo a taça a eles. Eles devolvem educadamente o gentil gesto.
Ele se levanta, junto com a esposa.
_Muito obrigado Edith, pela gentileza _diz Carlos Alberto para a anfitriã.
_Gostaria de agradecer também a presença de Justos Barcelos, sócio do noivo _diz Edith fazendo o mesmo gesto que fez para o Prefeito, em direção a Justos.
Ele se levanta e agradece.
_Você é muito gentil, Edith _diz Justos agradecendo.
_Bem, depois dos devidos agradecimentos, venho aqui apenas desejar a minha filha que inicie uma nova fase de sua vida com muitas alegrias. Com muito amor. Vou ser sincera, não vou mentir, por que hoje não cabe lugar para mentiras. Não é o casamento que eu sonhei para você, Helena Decresson. Tantos homens mais ricos, de sociedade. Fiz tantos planos, mas depois percebemos que os filhos não são nossos e eles é que fazem os sonhos deles. O que posso fazer é torcer pela sua felicidade ao lado de Guilherme. _diz Edith levantando a taça.
Helena olha para Guilherme. Via que ele estava tranqüilo. Aquele comentário de sua mãe foi de extrema grosseria.
_Posso fazer um brinde e dizer algumas palavras? _Pergunta Guilherme olhando para Edith.
_Claro, o jantar e a festa são para vocês _diz Edith sorrindo para ele.
_Agradeço as belas palavras da anfitriã. Desde a primeira vez que eu vi Helena eu soube que ela seria a mulher de minha vida. Sabemos disso quando percebemos que a pessoa q ue está ao nosso lado nos completa em todos os sentidos. _Diz Guilherme, que se vira e se aproxima de sua noiva. Carinhosamente pega suas mãos e coloca um anel em seu dedo.
Todos se emocionam com o gesto. Edith observa aquilo, de pé e seu coração bate tão forte que achava que ia explodir.
_Meu amor, que lindo _diz Helena admirando o anel em seus dedos.
_Bem, para terminar, posso não ser de uma família rica, posso não Ter muito dinheiro, mas eu tenho muito amor a dar para sua filha, Edith. O que não podemos escolher é a sogra. _diz Guilherme levantando a taça, sorrindo para Edith.
Por dentro Edith sente-se humilhada ao ver a felicidade da filha. Não se importa nem com o comentário "engraçadinho" do genro. Na verdade, gostaria de estar no lugar dela. Seu futuro gênro percebe isso.

...

O Jantar é servido e todos o aprovam. Depois as sobremesas são servidas. O jantar estava inesquecível. Todos cumprimentam a anfitriã, elogiando seu esmero em recebê-los tão bem. Ficam na casa Lucia e Felipe, Helena e Guilherme, Justos e Edith. Por motivos de compromissos, o Prefeito Carlos Alberto Montenegro e sua esposa Agnes saem mais cedo, depois das sobremesas.
Lucia se levanta. Vai ao banheiro. De longe, Edith percebe. Julio aparece e para ao lado de sua patroa.
_Felipe e Lucia fazem um belo casal, não dona Edith.
Ela olha para ele e não gosta de seu comentário.
_Felipe é bem parecido com o pai.
Julio a observa e por curiosidade faz uma pergunta.
_Em que sentido?
_Em gostar de pobre. Vocês se proliferam como uma praga que infesta esse país.
Aquele comentário era de extrema grosseria.
_Para a senhora o melhor era estar bem longe daqui, não é?
_Com certeza.
_Eu espero que os dois sejam muito felizes.
_Não se depender de mim. Farei o possível para que meus filhos não se envolvam com gente da sua laia. Gente pobre, sem educação, sem berço.
_Somos pobres sim, com muito orgulho, Dona Edith. E a senhora não se esqueça que um dia já foi pobre também.
_Vai fazer seu serviço, serviçal atrevido.
Julio se afasta dela. Assim que percebe que ele se afastou, vai atrás de Lucia.

...

No banheiro...
Lucia estava arrumando a maquiagem, quando Edith bate na porta.
_Lucia, é você quem está aí?
_Sim, sou eu.
_Posso entrar.
_Claro, Dona Edith.
Edith entra e fecha a porta. Olha a imagem de Lucia pelo vidro.
_Podemos conversar?
_Claro que sim.
Ela se aproxima dela e para ao seu lado. Começa a passar a mão no cabelo de Lucia.
_Posso pedir uma coisa para você, Lucia?
_O que quiser, dona Edith.
_Por favor, acabe com essa coisa de dona Edith. Chame-me apenas de Edith.
_Tudo bem, Edith.
_Assim é melhor.
_O que a senhora ia me pedir.
_Vamos lá. Acha mesmo que Felipe é o homem ideal para você?
Lucia sorri sem entender nada.
_Como assim?
_Felipe é um Decresson. Tantas mulheres mais bonitas e mais ricas dão encima dele direto.
Lucia engole aquilo a seco.
_Por favor, seja mais clara dona Edith.
Ela agarra Lucia pelo braço e a faz olhar para o espelho.
_Não gostaria de ver meu filho envolvido com uma moça que não sabe se vestir, se comportar.
Os olhos de Lucia se enchem de lágrimas.
_Ele me ama dona Edith.
_Deixe de ser melodramática. Não vê que meu filho só quer diversão com você? Lindo daquele jeito ele jamais vai ficar com uma jeca como você. Além do mais você nem saiu direito das fraldas.
_Por favor, não faça isso.
Edith pega o cabelo de Lucia e mostra para ela.
_Olha para esse cabelo. Para essa roupa. Você não sabe se vestir. Não sabe se pentear. Estive analisando você a noite inteira, não sabe segurar um garfo. Não sabe se portar numa mesa. Meu filho é o dono de todo o meu império, ele precisa de alguém a sua altura. O que você acha que vai acontecer quando Felipe perceber que você é uma pessoa sem classe, sem estirpe?
_Não sei.
_Ele vai enjoar de você, minha querida. Vai perceber que não passa de uma moça sem classe que se casou com ele só por causa do seu dinheiro.
_Não, isso não é verdade.
_Vamos lá, eu sei que você é uma alpinista social. Quer crescer as custas de meu filho, só que isso não vai acontecer, por que eu não vou deixar.
_Dona Edith, a senhora está enganada.
_Tudo bem, vamos falar o seu linguajar. Vamos falar a língua que você entende. Quanto você quer para deixar meu filho em paz? Pode escolher. Dólar, francos, marcos. Coloco esse dinheiro em sua conta, em qualquer outro banco, do Brasil ou no exterior, você volta para onde veio e nunca mais terá problemas com dinheiro. Com a condição de ficar bem longe de Felipe Decresson.
_A senhora está me ofendendo.
_Minha querida, fale de uma vez quanto você quer para deixar meu filho em paz.
Lucia nunca foi tão humilhada. De seus olhos caem lágrimas. Olhava para aquela mulher horrorosa na sua frente e não acreditava no que ela estava fazendo. Estava querendo lhe dar dinheiro para que ela abandonasse definitivamente Felipe.
_Não quero nada.
_Não me obrigue usar a força contra você.
_Vai fazer o que? Vai me matar?
Edith se aproxima dela. Seu olhar era de ódio.
_Escuta aqui sua morta de fome. Não vai destruir a vida de meu filho. Ou você faz o que eu estou pedindo, ou é melhor voltar para a Grécia e esquecer que o Brasil existe. Vou fechar as portas de qualquer trabalho aqui neste país, para você e para sua mãe.
_Eu não quero nada. Eu vou embora. Pode ficar com seu filho para você.
_Não é preciso dizer, que se meu filho desconfiar dessa conversa, arranjem um jeito de ir definitivamente para a Grécia, ou aqui no Brasil, vão Ter que mendigar para viver.
Edith sorri e olha para o espelho. Dá um último retoque em sua maquiagem e sai. Lucia se encosta na porta e chora. Lentamente vai descendo até o chão. Estava abalada. Pensava que Edith era uma pessoa diferente da maioria dos ricos. Não era. Ela era cruel e mesquinha. Jamais permitiria que Felipe e ela ficassem juntos.
Naquele momento a porta do banheiro se abre. Era Jussara. Tinha ouvido a conversa das duas. Ao ver a pobre menina no chão, chorando, vai ajudá-la.
_Ei, menina, não fique assim.
_Foi horrível. Ela acha que eu me aproximei de Felipe por causa do dinheiro dele.
_Acalme-se, vamos para o meu quarto.
As duas se levantam. Saem do banheiro e vão para o quarto de Jussara. Assim que chegam, ela fecha a porta e pede para que Lucia sente-se em sua cama.
_Qual o seu nome?
_Jussara.
_Eu me senti tão mal, parecia uma ladra.
_O seu nome qual é?
_Lucia. Sou namorada de Felipe.
_Eu vi vocês juntos. Felipe estava tão feliz ao seu lado.
_Não podemos ficar juntos.
_Edith Decresson é a mulher mais cruel que eu já vi em minha vida. O olhar dela é frio, ela é calculista. E acha que todos só se aproximam deles por dinheiro.
_Tenho que ir embora do país. Minha mãe ia trabalhar no Decresson Supermercados.
_Não faça isso. Ela ia ser perseguida do Edith.
_Você trabalha com ela?
_Ajudo meus pais no serviço de casa. Ela nos humilha de todas as maneiras, você não tem idéia.
_Eu imagino.
_Nem sempre foi assim, Lucia. Meu pai me falou que o marido dela era uma pessoa maravilhosa. Helena e Felipe puxaram a ele. Simples, honesto, sincero. Ele enloqueceu ao descobrir que ela o traia com o capataz. Isso foi a dez anos atrás. Ele matou o rapaz e deu uma surra nela. Pelo menos é o que meu pai diz. É um segredo nosso.
_E o que aconteceu?
_Ele sofreu muito, mas colocou um cabresto nela. Só que o destino pregou uma peça. Um acidente de carro o matou e ela assumiu tudo. Foi a partir dessa época que nossa vida passou a virar um inferno. Por amor a Helena e a Felipe, meu pai ficou.
_Que história! Isso explica um pouco o por que de Edith ser tão amarga.
_É verdade. Agora o que você vai fazer?
_Tenho que sair dessa casa sem que Felipe me veja. Ele vai querer uma explicação do por que eu estou indo embora. E não posso falar.
_Desculpa, Lucia, mas eu sou amiga de Felipe e ele vai sofrer muito.
_Se ele souber, nunca mais vou poder voltar a esse país.
_Que mulher desgraçada! Minha nossa senhora. Vamos fazer assim. Agora está muito escuro para você ir embora. Fique aqui. Durma aqui comigo.
_E minha mãe, ela vai ficar preocupada.
_Qual é o nome dela?
_Sara.
_Eu ligo e invento uma desculpa. Amanhã cedinho você vai para sua casa e conversa com sua mãe e aí vêem, o que vocês vão fazer.
_Tudo bem, muito obrigada, Jussara. Não sei como vou agradecer sua ajuda.
_Só pelo fato de estar contra Edith Decresson, para mim já é uma felicidade.
_Tudo bem. Vou ficar por aqui.
_Vou voltar para ajudar meus pais.
_Tudo bem.
Lucia e Jussara se abraçam forte. Depois Jusssara sai do quarto. Lucia fica sozinha. Chora baixinho até pegar no sono.

...

Felipe andava de um lado para o outro. Helena se aproxima do irmão.
_O que houve, Lipe?
_Lucia disse que ia ao banheiro e até agora nada _diz Felipe nervoso.
_Calma, daqui a pouco ela aparece.
_Só se ela se afogou no banheiro.
_Será que ela está passando mal?
_Meu Deus, você tem razão, Helena.
Felipe atravessa a sala e vai para o banheiro. Ao se aproximar, vê que a porta estava aberta. Entra e não vê ninguém.
“Será que ela já foi embora e nem se despediu? Por que?”. Naquele momento, como se fosse uma fugitiva, Jussara entra no banheiro e tranca a porta. Felipe estranha aquele ato.
_Jussara, ficou louca? O que os outros vão pensar _Sorri Felipe nervoso.
_Preciso falar com você.
_Ju, mil desculpas, mas a gente não tem nada mais a ver.
Ela sorri para ele.
_Não é nada disso, seu bobo. Tenho que falar sobre Lucia.
Aquilo o surpreende.
_Sobre Lucia, por que?
_Sua mãe esteve aqui e a humilhou, Felipe. Disse que se ela não fosse embora, que as portas para qualquer emprego nesse país iriam se fechar. Para ela e para sua mãe. Ela não quer que você se case com ela, por que não aceita ver você casado com alguém que não seja do seu nível. A pobrezinha ia embora nessa escuridão. Eu não deixei.
Os olhos de Felipe se enchem de lágrimas. Estava furioso.
_Maldita Edith Decresson, ela vai Ter que me ouvir, a se vai.
Felipe tenta abrir a porta do banheiro, mas Jussara não deixa.
_O que vai fazer?
_Vou arrazar a minha mãe.
_Vai enfrentar o poder de sua mãe? Felipe. Ela tem dinheiro, tem prestígio. Temos que pensar. Precisamos saber agir.
Felipe senta-se na privada, que estava com a tampa fechada. Estava transtornado.
_Preciso que você me ajude a chamar Helena.
_Acha seguro contar para sua irmã?
_É claro.
_Peça para ela ir ao meu quarto.
_Tudo bem, Lipe. Tenha calma, não faça nada que não se arrependa depois.
_Eu sei. Onde ela está? Ela foi embora?
_Não. Está no meu quarto. Já liguei para a mãe dela e disse que ela teve uma pequena indisposição e que iria dormir no meu quarto, hoje e que amanhã cedinho iria para casa.
_Tudo bem. Vou para o meu quarto.
_Vou falar com Helena.
Jussara abre a porta do banheiro e ela sai. Minutos depois é Felipe quem sai. Vai para seu quarto.

...

Helena estava com o noivo, quando Jussara se aproxima.
_Dona Helena, telefone para a senhora _diz Jussara.
_Meu amor, vou atender e já volto _diz Helena.
_Tudo bem _diz Guilherme.
Helena se afasta e vai para a outra sala atender. Jussara vai atrás.
_Dona Helena, eu menti.
Helena estranha aquilo que Jussara tinha acabado de falar.
_Por que Jussara, o que você aprontou?
_Felipe precisa da senhora. Está em seu quarto.
_Felipe? O que houve?
_Vá, por favor. Não quero que dona Edith me pegue de papo com a senhora. Ele está em seu quarto.
Jussara se afasta. Helena estava tensa com aquilo que Jussara estava acabando de lhe contar. Ela sobe as escadas, discretamente.

...

Felipe estava sentado em sua cama. Não estava acreditando que sua mãe fizera aquilo a sua namorada. De seus olhos caem lágrimas. De repente, alguém bate na porta. Ele pede que a pessoa entre. Sabia que era sua irmã.
_Entre.
A porta se abre. Helena entra e a fecha. Felipe se aproxima dela e a abraça. Helena percebe que ele estava chorando.
_Meu Deus, o que houve?
_Edith Decresson passou dos limites.
Felipe puxa a irmã e a faz sentar em sua cama. Depois, senta-se diante dela.
_O que ela fez agora, Lipe?
_Humilhou Lucia.
Helena se levanta assustada.
_Por que?
_Por que ela é pobre e não tem condições de ser a minha mulher. Por que ela é pobre.
_Mamãe pega pesado.
_Ela disse que se ela não fosse embora, que as portas de todos os empregos nesse país iriam se fechar. Helena, ela não quer me ver feliz.
Felipe a abraça e chora.
_Meu Deus, Felipe. E agora? O que fazemos? Você ainda é menor, e ela também.
_Não sei o que vamos fazer. Jussara ouviu a conversa e a viu no banheiro chorando. Ela queria ir embora nessa escuridão. Ela está no seu quarto, mas confesso que não sei o que fazer.
_Calma, meu amor, vamos achar uma saída.
_Por que tem que ser assim? Por que mamãe tem que ser tão cruel com os outros?
_Ela sempre foi assim. Uma hora ela iria mostrar as garras para você, meu amor. Como ela sempre fez comigo. Já sei. Guilherme pode nos ajudar.
_É seguro?
_Ele é de confiança, meu anjo. Eu consegui fazer com que ele ficasse longe das garras da mamãe. Fiz bem. Seu erro foi Ter trazido essa menina para o meu jantar. Desconfie sempre das boas intensões de Edith Decresson.
_Você tem razão.

...

Helena desce as escadas e sorri para todos.
_Mamãe, o jantar estava perfeito, mas vou me recolher. _diz Helena sorrindo, estava com cara de cansada mesmo.
_Vou com a minha noiva _diz Guilherme.
Todos estavam indo embora também. Só quem ficaria era Justos e Guilherme.
_Se não se incomodam, vou ficar conversando com Justos _diz Edith.
_Adoraria sua companhia _diz Justos.
Helena beija a mãe e Justos. Guilherme acena para os dois e eles sobem. Assim que percebe que Edith volta a conversar com Justos, Helena agarra a mão do noivo e o leva para o quarto de Felipe.
_O que é isso? _Pergunta Guilherme assustado.
_Não faça perguntas, explico depois _diz Helena.
Os dois entram no quarto de Felipe. Com calma os dois explicam tudo o que aconteceu a Guilherme. Depois de tudo explicado, ele se senta para não cair.
_Minha nossa senhora, do que eu me livrei _diz Guilherme bobo com as armações de Edith. Na verdade, ele sabia que ela era esse tipo de mulher, mas pensava já Ter visto tudo, mas a cada dia mais, Edith o surpreendia.
_O que vamos fazer? _Pergunta Helena triste. Não gostava de ver seu irmão daquele jeito.
_Simples. Vamos levá-la para o Rio de Janeiro. Ela pode trabalhar na minha empresa, ela e a mãe _diz Guilherme sorrindo.
Helena sorri para o noivo. Ela levanta e o abraça forte.
_Eu sabia que você tinha uma solução para isso _diz Helena orgulhosa.
Felipe sente-se aliviado.
_Você faria isso por mim? _Pergunta Felipe mais tranquilo.
_Claro, cunhado. Sua irmã vai ser minha mulher e serei da família, não é? _Pergunta Guilherme.
Felipe se levanta da cama e abraça o cunhado.
_Muito obrigado, Gui. Não sei como agradecer _diz Felipe abraçado a seu cunhado.
Helena se abraça a eles.
_Felipe, ele tem solução para tudo. É incrível. _diz Helena, beijando o rosto de Guilherme.
Juntos eles iriam resolver o problema criado por Edith Decresson. O principal era que Edith não desconfiasse de nada.

...
De madrugada...
A porta do quarto de Jussara se abre. Lucia tinha pego no sono. Com calma, ele senta-se na cama. Com carinho, passa mão em seu cabelo. Ela abre os olhos e vê Felipe. Os dois se levantam e se abraçam.
_Eu sei de tudo.
_Minha nossa senhora, sua mãe vai me matar, me expulsar do país.
_Calma. Minha irmã e meu cunhado vão me ajudar. Vão nos ajudar. Temos que levá-la em casa. Venha com calma. O bom é que a casa de Julio e Laura é afastada da Casa Grande. Minha mãezinha querida deve estar no sétimo sono.
_Quem vai me levar para casa?
_Helena e Guilherme, e eu, claro.
_Nossa, eles sabem. Não era para...
_Você e sua mãe vão para o Rio de Janeiro. Guilherme vai dar trabalho para vocês. Na empresa dele.
Lucia se emociona. Estava com medo de sair do país e nunca mais voltar a vê-lo.
_Entrei em pânico. A possibilidade de nunca mais te ver me tirou o chão.
_Eu também. Meu anjo, temos que ir, logo vai amanhecer e minha mãe acorda cedo. Ela não pode desconfiar de nada.
Os dois saem do quarto de Jussara e vão para o carro de Guilherme e Helena. Teriam um longo dia pela frente.

...

No dia seguinte...
Sara estava sentada na mesa abalada com tudo o que estava acontecendo. Helena, Felipe e Guilherme estavam com ela e sua filha. Lucia estava na outra extremidade da mesa. Olhava para sua mãe, assustada.
_Minha nossa senhora, ela me pareceu uma senhora tão distinta.
_Não é, mamãe. Precisamos ir embora.
Sara se levanta angustiada. Olha para a filha e sente raiva de Edith, por tê-la humilhado.
_Ela não podia Ter humilhado você. Você é uma criança ainda, como Felipe.
_Mamãe, temos que decidir. Guilherme nos arrumou um emprego no Rio. Foi a única maneira que encontramos para que eu e Felipe conseguíssemos nos ver.
_Não sei como agradecer, seu Guilherme _diz Sara abalada.
Ela ia se ajoelhar diante dele, mas ele não a deixou fazer aquilo.
_Por favor, dona Sara, vou me sentir muito mal se a senhora fizer isso _diz Guilherme não a deixando fazer aquilo.
_Bem, vamos voltar para a Fazenda antes que minha mãe acorde, vocês tem que decidir. Hoje a tarde voltamos para o Rio. Edith Decresson vai estar no gabinete da Presidência e não vai perceber nada. Da carona que vamos dar para vocês. _diz Helena.
_Vamos sim, Helena. Não temos outra saída _diz Sara, abalada.
_Vamos arrumar tudo e iremos com vocês _diz Lucia.
Felipe e Lucia se abraçam forte.
_Meu Deus, o que há de mal em dois jovens se gostarem? _Pergunta Sara olhando para eles.
_Nada, mas minha mãe gosta de decidir o futuro dos outros _diz Helena.
Sara se levanta e abraça Guilherme e Helena. Lucia e Felipe se beijam, se despedem. Os três saem em companhia de Sara e Lucia. Eles entram, no carro, ele dá a partida. Lucia acena para Felipe e para sua irmã. Em seguida as duas entram.

...

No Gabinete de Edith Decresson...
Mais tarde...
Edith estava sentada, vendo as notícias em seu lap-top, quando a porta de sua sala se abre abruptamente.
_Minha senhora, não pode entrar assim. _Berra Melissa, tentando impedir a senhora de entrar.
Uma senhora entra na sala e olha para Edith Decresson. Ela se levanta, assustada.
_O que é isso? Dona Melissa, a senhora é paga para não deixar entrar qualquer um na minha sala _diz Edith indignada.
_Sou Sara, a mãe de Lucia _diz Sara, abalada.
_Dona Melissa, vou falar mais uma vez. Se isso voltar a acontecer, não vai haver mais uma Segunda chance _diz Edith.
_Sim senhora _diz Melissa assustada.
Melissa sai da sala. Edith senta-se e encara a senhora que estava a sua frente.
_O que a senhora deseja?
_Vim aqui avisar a senhora que vamos embora. Como a senhora quer.
_Muito bom, vejo então que a minha conversa com sua filha rendeu frutos. Bom para vocês duas. Fui bem clara com ela. Eu a quero longe de Felipe. Até ofereci dinheiro, mas num arroubo de honestidade, o que definitivamente eu não acredito, ela recusou. De alguma maneira ela acha que com essa atitude eu mude de idéia em relação a ela e a deixe ficar com meu filho. Tenho certeza absoluta que isso não vai acontecer.
_Não preciso que a senhora acredite ou não na honestidade de minha filha. Vim aqui somente falar que sou honesta e a criei da mesma forma.
Edith se levanta e aproxima-se de Sara.
_Acha mesmo que eu vou acreditar que sua filha não se interessou pelo meu filho só pelo que ela pode ganhar com esse casamento?
_Seus filhos tem valor, dona Edith. As pessoas se aproximam sim, mas não só pelo dinheiro.
_Palavras lindas, mas em nada me farão acreditar que vocês duas não querem ganhar algo com esse casamento.
_Bem, já que uma simples conversa não tem razão de ser pela senhora, vou ser bem direta. Humilhe novamente minha filha e eu mato a senhora, entendeu? _diz Sara séria, num tom ameaçador.
_Eu acho que ela não vai mais Ter coragem de aparecer na minha casa depois do que eu disse para ela. E cão que ladra, não morde, já ouviu esse ditado?
_Que mulher infeliz, que ser horroroso. Por um momento pensei que aquela mulher que me ajudou no supermercado fosse diferente desses ricos metidos, mas não. A senhora é pior.
_Faço isso para o bem de qualquer cliente, mas isso não quer dizer que eu admita que se infiltrem em minha família com interesses escusos. Pode Ter certeza, minha cara, eu sei bem quais são as intenções de vocês.
_Perdi meu tempo vindo aqui, mas pelo menos eu a avisei.
Edith aproxima-se de Sara e a encara.
_É preciso mais que isso para intimidar Edith Decresson, sua morta de fome.
Sara vira-se e vai em direção da porta.
_O ar nesse ambiente está irrespirável.
_Saia daqui. E nunca mais apareça. Vá para junto daquela meretriz de sua filha.
Sara se enfurece. Fecha a porta, aproxima-se de Edith e a esbofeteia. Ela cai sobre o sofá. Sara a olha séria. Com calma, Edith se levanta. Passa a mão na boca e vê sangue.
_De onde saiu este, tem muito mais. É só você humilhar minha filha novamente.
_Saia antes que eu chame a segurança para expulsar você debaixo de pontapés, sua infeliz. Vai me pagar por esse tapa.
_Não tenho medo de você, mulherzinha cruel. Se aproveitar de uma pobre menina indefesa para maltratá-la.
_Não quero ver mais seu rosto aqui nessa cidade. Vou transformar a vida de vocês num inferno.
_Se fizer isso vou direto ao seu filho e conto tudo o que fez. Ele vai adorar saber de tudo.
_Cuidado, pela rua existem carros desgovernados, balas perdidas. Pode acontecer algo com aquela infeliz da sua filha.
_Toque num fio de cabelo dela e garanto que vou te procurar no inferno.
_Saia daqui, infeliz _Berra Edith.
Sara se retira. Tinha enfrentado a fera. Edith estava irada. Passa a mão na boca e vê sangue.
“Tenho certeza de que vamos nos encontrar mais na frente, Sara e Lucia. Com certeza vão se arrepender de terem cruzado o meu caminho.”